terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Delírios de Narizinho, a bolivariana.

Gleisi Hoffmann, linha de frente do bolivarianismo no Brasil, escorregou numa casca de banana que atesta sua cegueira. Augusto Nunes:


Vítimas de paixões cegas costumam exibir tendência ao delírio. Incapazes de encarar a realidade, acabam como José Dirceu, que durante o Mensalão afirmou estar quase convencido da própria inocência, ou como Dilma Rousseff, que disse enxergar um cachorro atrás sempre que olha para uma criança. Gleisi Hoffmann, presidente do PT, foi a mais recente vítima da armadilha mental na qual se colocam os que decidem defender o indefensável.

Durante o clássico Bayer Leverkusen x Bayern de Munique, vencido pela equipe visitante por 3 a 1, uma faixa estendida na arquibancada trazia, em maiúsculas, a expressão “Forza Luca”, em referência a um cidadão que ficou ferido em briga de torcidas. Gleisi recebeu de alguém “muy amigo” uma foto na qual o braço de um torcedor apoiado na faixa escondia a parte de cima do C de Luca.

A senadora Narizinho ─ ou “Coxa” ou “Amante” nas listas de propina ─ correu para o Twitter: “SHOW DE TORCIDA!! Um apaixonado por futebol como @LulapeloBrasil merece mesmo o carinho e a homenagem de torcedores no mundo todo. Recebi esta imagem, que mostra uma faixa ‘FORZA LULA’ na torcida do Bayern de Munique, ontem, na partida contra o Bayer Leverkusen, pela Liga Alemã”.

Narizinho foi alertada minutos depois, mas minutos depois são uma eternidade em redes sociais e era tarde demais para impedir que o mico ganhasse o mundo. Gleisi apagou a postagem e disse apenas: “Fiz de boa fé”. De fato, fé é o que não falta aos seguidores de seitas.

Ligações perigosas com o terrorismo

"Novas multinacionais brasileiras do crime florescem nas fronteiras. EUA apuram conexão de grupo paulista com ala paramilitar do Hezbollah, que é considerada terrorista". Artigo de José Casado, publicado pelo jornal O Globo:

Chegaram em silêncio. Na virada do ano, os Estados Unidos aumentaram o número de agentes especializados em tráfico de drogas e terrorismo nas maiores cidades das fronteiras do Brasil com o Paraguai e a Bolívia, que somam 4,7 mil quilômetros. Investigam suspeitas de conexão de um grupo criminoso paulista, o PCC, com uma ala paramilitar da organização política libanesa Hezbollah.

De raiz fundamentalista islâmica xiita, o Hezbollah é visto com simpatia em parte do mundo árabe. Porém, uma de suas milícias, a Organização de Segurança Externa, é classificada como terrorista por EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá, Nova Zelândia, União Europeia, Argentina e Israel.

O Brasil tem 15 mil quilômetros de fronteira com dez países. Quatro deles (Colômbia, Peru, Bolívia e Paraguai) são os maiores produtores de cocaína e maconha. As novas multinacionais brasileiras do crime florescem no controle das rotas de tráfico desses países na direção do Atlântico.

Em Brasília, sobram evidências da expansão de alianças financeiras e logísticas entre bandos transnacionais para cadeias de produção, transporte, distribuição e exportação à Europa, África e ao Oriente Médio, sobretudo via Rio e São Paulo.

São os laços tecidos nesses “corredores” que viabilizam o contrabando. Exemplo: parte do armamento usado como moeda de troca nos comboios de drogas para o Brasil tem origem em arsenais da guerrilha colombiana Farc, recém-desmobilizada. Núcleos das Farc (como as Frentes 1, 17 e 16) rejeitaram a dissolução e lideram o tráfico na fronteira Brasil-Peru.

Na região Oeste, dois dos maiores grupos criminosos brasileiros, o paulista PCC e o carioca CV, disputam a hegemonia no comércio de drogas em cidades da fronteira com o Paraguai e Bolívia. Ao Norte, na fronteira com Peru e Colômbia, paulistas e cariocas lutam com a amazonense FDN pelas rotas fluviais. É nesse ambiente que agências americanas (DEA, FBI e antiterrorismo) tentam confirmar elos da máfia paulista com a ala paramilitar do Hezbollah.

A repressão não atinge 3% do movimento estimado num mercado onde o lucro é exponencial. Pela cotação da semana passada, um quilo da folha de coca custa em média US$ 0,50 (ou R$ 1,65) em plantações do Peru. Metade da produção desse país é enviada à Bolívia como pasta base para refino. Exportado do Brasil, o quilo de cocaína é vendido a US$ 70 mil (R$ 231 mil) no varejo americano ou europeu.

O crescimento das exportações, via Brasil, é atestado pelos sucessivos recordes no confisco — ano passado foram 44,7 toneladas de cocaína e 313 de maconha. Na esteira disso há uma injeção de capital nas regiões de trânsito. E como os serviços auxiliares na rota são remunerados com droga, outro efeito é a expansão do tráfico doméstico. A consequência está no aumento da taxa urbana homicídios (23% na última década). O que acontece na fronteira se reflete nas cidades.

Esse processo de internacionalização de grupos criminosos brasileiros ocorre numa etapa de debilidade institucional, agravada pela crise fiscal e por incompetência demonstrada do Executivo, Legislativo e Judiciário. Há excesso de diagnósticos e discursos baratos. E há, também, uma clara tendência de aumento do patrocínio do narcotráfico na campanha eleitoral que se inicia. Até porque, como dizia o poeta Ferreira Gullar, “a vida só consome o que a alimenta”.

O conservadorismo caseiro e o comedor de gente

"Bolsonaro é expressão eleitoral de conservadorismo caseiro, de natureza pragmática, esvaziado de caráter ideológico, cuja base é a experiência do pobre", escreve o editor Carlos Andreazza no jornal O Globo. Diria mais: Bolsonaro é um Lula à direita:


O brasileiro médio é difusamente conservador. Isso nada tem a ver com discussões filosóficas sobre conservadorismo. Não há formulação a respeito. Apenas sentimento; um impulso em defesa de valores — a ideia de família tradicional, por exemplo — percebidos como sob ameaça.

O brasileiro médio, vagamente conservador, somente quer preservar o — pouco — que tem. Ele não pode ser associado automaticamente à direita. Isso porque seu conservadorismo, antes de qualquer alinhamento político, consiste em posição — tão intuitiva quanto reativa — de sobrevivência, ora aditivada por constatação incontornável: a de que as pessoas estão insatisfeitas, convencidas de que a atividade política é eufemismo para ação criminosa, de que as pautas que prosperam nos gabinetes servem a minorias organizadas, e de que a elite dirigente alterna-se no poder alheia aos verdadeiros dramas da população.

Falo do que se pode chamar de conservadorismo popular, de matriz religiosa, nacionalista, disposto a embarcar na tentação autoritária de um líder populista que prometa resolver o problema, e fundamentalmente reacionário, seduzido pela memória que idealiza o passado. Num país com sólido histórico de intervenções armadas sobre a vida pública, esse saudosismo tem destino: regime militar.

Em artigo recente, o jornalista Paulo Roberto Silva foi preciso em definir o tripé que embasa tal lugar conservador: segurança, ordem e moralidade. Impossível, pois, não pensar em Jair Bolsonaro. Ele é a expressão eleitoral desse conservadorismo caseiro, de natureza pragmática, esvaziado de caráter ideológico, cuja base é a experiência do pobre. O deputado é o que melhor o explora; o que mais rapidamente mapeou esse conjunto de anseios sem representação; e o que mais habilmente discursa para encampá-los.

Impossível, portanto, não pensar também em Lula. Porque o ex-presidente já foi o porta-voz desse conservadorismo íntimo, estrato em que jamais o leram como prócer da esquerda, mas como “um de nós”, alguém de fácil identificação, que entendia os interesses dos excluídos, aos quais daria vez. Esse território, hoje, não lhe é mais exclusivo. Bolsonaro ocupa larga faixa, à qual somou seu exército de ressentidos.

Impõe-se, pois, uma reflexão. Estou entre os que consideram que o deputado será o principal prejudicado caso Lula não consiga disputar a Presidência. Baliza de orientação para todos os adversários, para nenhum outro, contudo, o ex-presidente seria referência maior — e isso porque Bolsonaro se tornou o maior nome eleitoral do antilulismo. Ocorre que essa polarização, elitista, talvez tenha alcance superestimado, e que a ausência de Lula resulte mesmo em impacto sobre a massa do conservadorismo doméstico de que trato aqui, aquela gente humilde e objetiva, que ignora o embate partidário e que não tem tempo para classificações ideológicas; esse povo que ora se enxerga no capitão.

Pergunto: na hipótese em que Lula é impedido de concorrer, será possível desprezar a migração da parcela não petista de seus eleitores para Bolsonaro? Sei que as pesquisas já captam o movimento; mas questiono: não estaria esse potencial subestimado?

É preciso estudar todos os cenários. O bolsonarismo é fenômeno que merece exame independentemente do destino de Bolsonaro em 2018. Com ou sem Lula na urna, porém, estou entre os que apostam na desidratação de sua candidatura uma vez iniciada a campanha e posta a moer a máquina eleitoral do establishment. Ele poderia, no entanto, dificultar a própria maceração. Mas, apregoando-se como o suprassumo da ética, montou armadilha fatal contra si, machucado por qualquer esbarrão no mais caro pilar do tripé que sustenta o conservadorismo familiar que exprime: o da moralidade.

Bolsonaro “comedor de gente”? Bolsonaro “comendo de gente” com dinheiro público? Aí, a casa começa a ruir. Bolsonaro com funcionário fantasma? Bolsonaro com assessor parlamentar — pago com recursos públicos — servindo em Angra dos Reis? Aí, a casa cai.

O deputado ergue sua mitologia sobre a pedra do político diferente. Para quem estica a corda da própria integridade assim, qualquer frouxidão no fio gera dissonância sobre a credibilidade; porque volta contra si a régua da pureza estabelecida para malhar os demais. Esse, todavia, foi o solo em que se plantou. Talvez — justiça seja feita — não houvesse alternativa; não para que chegasse aonde chegou. Para ele, mais que qualquer outro, não basta ser honesto. Tem de parecer; o mais honesto indivíduo já parido sobre a Terra. Bolsonaro pode perder tudo, até o auxílio-moradia, e ainda resistir. Mas não a supremacia moral, superfície sobre a qual o mais mínimo arranhão — ele e os seus sabem — será gangrena.

Esse medo da infecção ficou evidente a partir do levantamento patrimonial empreendido pela “Folha de S.Paulo”. Não há, na reportagem, prova de atividade ilícita. É legítimo, entretanto, estranhar que indivíduos cuja atividade sempre foi pública tenham podido comprar 13 imóveis. Esse pavor — a noção de que tinham a imagem em risco — acuou os Bolsonaro e os colocou em inédita posição defensiva.

Em vez de acusar conspirações onde só há necessária luz sobre a vida de quem quer presidir o país, Bolsonaro deveria dar satisfações claras ao brasileiro — pai de família, que não sonega impostos, dono apenas de princípios — que passou a duvidar do mito.

Em suma: é melhor Jair se explicando.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Patrulha alimentar: fascismo na cozinha.

Em artigo publicado na FSP, Luiz Felipe Pondé afirma que "proibir carne em certos dias da semana só pode ser ideia de fascista". Concordo plenamente. Aliás, proibir consumo de quaisquer alimentos em qualquer dia da semana é coisa de fascista. É o Estado metendo a patas na nossa mesa. Decidir o que comer é questão individual, não da bancada da rúcula ou da chicória:


Muitas vezes você deve ter se perguntado para que serve um deputado estadual no Brasil. Uma resposta que deve vir à sua mente é: para nada. Mas, você pode, infelizmente, estar errado.

Para além da inutilidade estrutural de grande parte dos políticos no Brasil, a organização política do Brasil determina a quase inutilidade dos deputados estaduais porque tudo é decidido em Brasília.

Como disse um amigo meu, se você cometer um crime no Brasil e se esconder na Assembleia Legislativa estadual, provavelmente, o crime prescreverá, porque quase ninguém vai lá.

As coisas sempre podem piorar: alguns entre os muitos inúteis podem resolver "legislar" e aí, a emenda sai pior do que o soneto. Inúteis são menos perigosos quando ficam quietos.

Por incrível que pareça, alguém parece estar tentando proibir restaurantes e bares de vender produtos de carne às segundas-feiras no Estado de São Paulo, em nome da defesa animal.

Temos em Brasília as bancadas da bala, da Bíblia, do boi, e agora, em São Paulo, temos a bancada da rúcula. Para essa bancada, a humanidade de sete bilhões de Sapiens pode sim se alimentar de rúcula com alface, apesar de toda a história da seleção natural dizer o contrário.

Tudo bem, modas são modas, e vivemos uma era de modas ridículas, principalmente entre jovens riquinhos. Veganos de todos os tipos, seguindo o guru Peter Singer e seu "Animal Liberation" de 1975, afirmam que comer animais é "especismo". O termo é cunhado como analogia a "racismo". Bicho também é gente.

Partilho da sensibilidade de cuidado com os animais e desconfio de quem maltrata animais. Mas, como seres naturais que somos, precisamos nos alimentar.

Não existe a natureza que os veganos imaginam em suas vidinhas protegidas e cheias de pequenos luxos alimentares presentes em restaurantes descoladinhos. A natureza é uma besta fera que devora tudo.

Câncer é tão natural quanto uma praia maravilhosa e deserta. Entrega um vegano desses pra besta fera que é a natureza e você verá o que acontece: os vermes carnívoros comerão os veganos, assim como comerão os frequentadores de churrascarias. A riqueza material corre o risco de deixar todo mundo abestalhado.

Afora o fato evidente de que as pessoas podem gostar ou não de carne, sentir-se bem comendo carne ou não, ter nojo ou não (e ninguém deve se meter nessa questão de gosto pessoal), a ideia de transformar em lei algo assim (proibir as pessoas de comer carne em locais públicos num dia da semana) só pode passar pela cabeça de algum fascista verde radical. Ou de alguém financiado por algum grupo de interesse em "dinheiro verde". Ou de um neoidiota contra a carne.

Se leis assim passarem um dia, teremos chegado ao fundo do poço de uma tendência contemporânea que é o fascismo de butique.

O que é fascismo de butique? É gente que transforma suas pequenas manias em pautas universais, do tipo: "A humanidade tem que viver como eu acho que ela deve viver".

Jovens que vêm de boas famílias, normalmente, compõem o grosso desse fenômeno. Na Europa, como bem dizia o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017), esse tipo de jovem é produto do Estado de bem-estar social, mas no Brasil e nos EUA são frutos de pais com razoável grana que pagam escolas caras que abraçam árvores.

Eduque seu filho para ser uma "pessoa com outra qualidade de consciência" e terá um idiota pra sempre a ser sustentado em suas manias narcísicas de comportamento "puro". Nunca se prepararam tão mal os jovens para a vida real como nos últimos anos. Jovens assim não enfrentariam desafios, dos Neandertais a Hitler.

Faça um teste consigo mesmo: se você achar que sabe como as pessoas deviam viver para serem melhores, a chance de você ser um fascista de butique é enorme.

Enfim: alguém quer proibir você de comer um churrasquinho na segunda-feira. Quer ir jantar à noite? Estaria a fim de comer um steak com molho poivre e fritas? A Assembleia Legislativa de São Paulo, do alto da sua infinita utilidade, quer proibir.

A bancada da rúcula vai obrigar a você a comer o que ela quer que você coma.

Conheça o pensamento dos defensores da impunidade

Yarochewsky: "a boçalidade do discurso da impunidade".
Há advogados, juristas e tutti quanti que defendem ardorosamente o desencarceramento, favorecendo o aumento da criminalidade. Imagino como andam as escolas de Direito país afora, já que alguns são também professores. A propósito, segue artigo de Percival Puggina, que lembra alguns nomes desses ilustres causídicos:


Para entender o que pensa a corrente ideológica que, em boa parte, responde pela leniência da legislação penal brasileira, pela frágil execução penal e pela explosão da criminalidade no Brasil, nada melhor do que ler o que escrevem seus adeptos. As opiniões abaixo foram colhidas das citações contidas em um único texto, da autoria do prof. Leonardo Issac Yarochewsky. O artigo completo pode ser lido aqui, e tem o arrogante título “A sanha punitivista e/ou a boçalidade do discurso da impunidade”. Imaginem o resto da biblioteca...

Ricardo Genelhú, Pós-doutor em Criminologia pela Universität Hamburg:
“o discurso contra a impunidade tem servido de motivo para uma suposta restauração da ‘segurança social’ quando na verdade, serve ela mesma, per se, é de desculpa para a perseguição ao “outro”(...)
"E o ‘discurso da impunidade’, com seu ensaio neurótico promovido por pessoas com onipotência de pensamento, tem poderosamente servido muito mais para ‘justificar’, ‘ratificar’ ou ‘manter’ a exclusão dos ‘invisíveis sociais’, tragicamente culpados e, por isso, incluídos por aproximação com os ‘inimigos’ (parecença), do que para demonstrar a falibilidade seletiva e estrutural do sistema penal antes e depois que um ‘crime’ é praticado, ou enquanto se mantiver uma reserva delacional publicizante, seja porque inafetadora do cotidiano privado, seja porque indespertadora da cobiça midiática."(1)
Leonardo Issac Yarochewsky - Advogado Criminalista e Doutor em Ciências Penais pela UFMG:
“É certo que o discurso midiático - criminologia midiática - da impunidade, contribui sobremaneira para o avanço do Estado autoritário e para a cólera do punitivismo.Atingidos pela criminologia midiática e pelo discurso da impunidade, políticos tendem a apresentar projetos de leis com viés autoritário, conservador e reacionário.” (2)
“Não se pode olvidar que a prisão continua sendo há mais de dois séculos a principal forma de punição para os “perigosos”, “vulneráveis”, “estereotipados” e “etiquetados”, enfim, para os que são criminalizados (criminalização primária e secundária) em razão de um processo de estigmatização, segundo a ideologia e o sistema dominante.” (2)
Salo de Carvalho – Advogado e professor de Direito Penal:
“o sintoma contemporâneo vontade de punir, atinge os países ocidentais e que desestabiliza o sentido substancial de democracia, propicia a emergência das macropolíticas punitivistas (populismo punitivo), dos movimentos políticos-criminais encarceradores (lei e ordem e tolerância zero) e das teorias criminológicas neoconservadoras (atuarismo, gerencialismo e funcionalismo sistêmico)”(3)
Marildo Menegat - Pós-doutor em Filosofia pela USP:
“O melhor a fazer hoje é tornar público este debate, o que significa politizá-lo, pois é o único caminho para pôr termo, quem sabe aos martírios e sacrifícios desde sempre praticados por esta espécie que, por um milagre do acaso, fez-se uma forma de vida, ainda penso, inteligente. É hora de nos entregarmos à realização da liberdade, e, para isso, o fim das prisões torna-se imperativo”. (4)
Reitero: imaginem o resto da biblioteca e suas consequências nas salas de aula dos cursos de Direito.

[1] GENELHÚ, Ricardo. Do discurso da impunidade à impunização: o sistema penal do capitalismo brasileiro e a destruição da democracia. Rio de Janeiro: Revan, 2015.

[2] YAROCHEWSKY, Leonardo Issac. Artigo “A sanha punitivista e/ou a boçalidade do discurso da impunidade”, http://emporiododireito.com.br/backup/a-sanha-punitivista-eou-a-bocalidade-do-discurso-da-impunidade-por-leonardo-isaac-yarochewsky/

[3] CARVALHO, Salo. O papel dos atores do sistema penal na era do punitivismo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010

[4] MENEGAT, Marildo. Prisões a céu aberto. In: Seminário depois do grande encarceramento. Organização Pedro Vieira Abramovay, Vera Malaguti Batista. Rio de Janeiro: Revan, 2010.

"Nunca nos renderemos"

Já reproduzi aqui artigos comentando o filme "O destino de uma nação" assinados por Alexandre Borges e Isabela Boscov. Desta vez, trago um artigo do professor João Carlos Espada, colaborador do jornal português Observador. "Aos amantes da liberdade, orgulhosamente patriotas, europeus e euro-atlânticos, Churchill disse em 1940: ‘Nunca nos renderemos!’":


Sim, vi o filme na semana passada, mal chegou até nós. E, sim, vou ver mais vezes. E vou hoje voltar a escrever sobre Churchill. Há uma desprezível seita anti-Churchill que o insulta sistematicamente nos ‘sites’ abertos de comentários da imprensa. Devem essa liberdade a Winston Churchill.

Na sala de cinema não estava muita gente — embora uma longa fila esperasse depois cá fora para a sessão seguinte. Na minha sessão, havia três senhoras francesas. Tal como eu, viram o filme em permanente tensão, inclinadas para a frente, com as mãos nas faces. No fim, aplaudimos discretamente.


É um grande filme (com alguns episódios menos felizes) e, sobretudo, com grandes actores. Mas é sobretudo um grande filme para aqueles que amam a liberdade e sabem o que ela vale. Nem todos sabem o que ela vale. E muitos são feitos para servir. Sobretudo ‘aqueles que pedem à liberdade algo mais do que a própria liberdade’ , como alertou Alexis de Tocqueville.

Winston Churchill não foi feito para servir. E não pedia à liberdade mais do que a própria liberdade. Era um patriota orgulhoso da história da sua nação marítima e independente — da sua ilha, como refere várias vezes no filme. Era um falante de inglês, orgulhoso da história dos povos de língua inglesa, incluindo a grande democracia americana — sobre os quais escreveu o último dos seus 40 livros e ao qual dedicou cerca de 25 anos, sem nunca desistir.

E era também, crucialmente, um grande admirador da civilização europeia e ocidental — no seio da qual sempre entendeu a sua nação e os povos de língua inglesa. Cícero e Shakespeare, além da Bíblia, são as únicas referências citadas por Churchill no filme. Mas o filme podia ter acrescentado algumas passagens dos inúmeros discursos em que ele associou a defesa da sua ilha à defesa da civilização europeia e ocidental — contra as barbáries imperialistas nazi e comunista, que desencadearam em conjunto a II Guerra com a combinada invasão da nação Polaca em Setembro de 1939.

Tudo isto foi-me explicado por Karl Popper, com grande intensidade, há trinta anos, em 1988, quando o visitei pela primeira vez na sua casa em Kenley, ao sul de Londres. Agora, quando, em apertado silêncio, assistia ao filme sobre Churchill, era a voz de Popper, há 30 anos, que eu ouvia em surdina, sob a voz de Churchill no filme.

Popper vivia numa ‘cottage’ encantadora, com um belo jardim, que ele conservava imaculado. Tinha uma vasta biblioteca, onde apenas se encontravam os grandes livros e os grandes autores da civilização ocidental. Fiquei por isso surpreendido ao ver duas gigantescas prateleiras com livros de e sobre Churchill. E perguntei-lhe por que motivo tinha tantos livros sobre Churchill, tendo ele sido basicamente um político.

Popper olhou-me intensamente. Houve um silêncio. E, a seguir, mandou-me sentar com um gesto inquestionável. ‘Sente-se rapaz! Receio ter de lhe ensinar algumas coisas muito sérias!’

Eu sentei-me, perplexo. E escutei-o atentamente, por mais de uma hora. Foi uma lição magistral. Sobre Churchill e sobre como ele salvou a civilização europeia e ocidental da pestilência nazi e, depois, da comunista.

Popper, nascido em Viena, a seguir literalmente declamou sobre o ‘mistério dos povos de língua inglesa e o seu simultâneo empenho na liberdade e o seu sentido de dever’. E não se esqueceu de rematar: ‘Estou surpreendido que você não esteja a par de tudo isto pois o seu país tem a mais antiga e honrosa aliança com a Inglaterra, chamada Tratado de Windsor, assinado no século XIV’. (Mandou-me em seguida estudar em Inglaterra, o que eu felizmente cumpri).

Tudo isto eu recordei intensamente enquanto assistia intensamente ao filme sobre Churchill. Quando saí, vagueei errantemente à procura de organizar os meus sentimentos. Creio que são relativamente simples e muito pouco inovadores:

Existe uma civilização europeia e ocidental — o chamado ‘milagre europeu’, que distinguiu culturalmente e misteriosamente uma península europeia de uma massa continental euro-asiática.

Qual é a chave dessa misteriosa diferenciação?

Liberdade. Na Europa, nós não somos feitos para servir.

E, porque não somos feitos para servir, a civilização europeia cresceu com uma cultura comum — greco-cristã — mas sem um plano comum. A civilização europeia manteve uma matriz cultural comum sem um poder político central comum. É uma civilização de nações, em contraste com impérios não-europeus. Esta civilização estendeu-se além do atlântico e tem sido sustentada pela Aliança Atlântica, designadamente com a grande democracia americana.

Em suma: não venham agora vender-nos a troca da Aliança Atlântica por uma aliança euro-asiática, para não dizer euro-chinesa. E não venham vender-nos a ideia anti-europeia de que a defesa da Europa significa a hostilidade contra o sentimento nacional das orgulhosas nações europeias.

Aos amantes da liberdade, orgulhosamente patriotas, europeus e euro-atlânticos, Churchill disse em 1940: ‘Nunca nos renderemos!’

"Forza", Lula!


Lava-Jato: Ideli no banco dos réus.

A ex-senadora por SC e ex-ministra dos governos petistas, Ideli Salvatti, é o novo alvo da Operação Lava-jato, em Curitiba. Recebeu dinheiro sujo da Transpetro:


Um dos novos inquéritos abertos pela Polícia Federal, na Operação Lava Jato, atinge a ex-senadora e ex-ministra Ideli Salvatti (Governo Dilma). A petista foi citada na delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

Além desta investigação, a PF abriu outros sete procedimentos. Além de Ideli são alvo da nova ofensiva da Lava Jato, o ex-presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves (PMDB), o ex-deputado Cândido Vaccarezza (ex-PT/SP), o ex-deputado Jorge Bittar (PT), ex-deputado Edson Santos (PT), as obras do Estaleiro Rio Tietê e empresas que pagaram propina sobre contratos da subsidiária da Petrobrás.

O ex-presidente da Transpetro relatou, em sua delação, que Ideli era ‘líder de governo e candidata ao governo de Santa Catarina e disse que estavam sendo estudada a possibilidade de estaleiros’ no Estado.

“Ela iria disputar uma eleição ao governo e perguntou, por telefone, se o depoente poderia receber seu chefe de gabinete; que em seguida foi procurado pelo seu chefe de gabinete no hotel Bonaparte em que estava hospedado em Brasília; que ele perguntou se o depoente poderia colaborar na campanha de Ideli Salvatti (2010)”, relatou.

Sérgio Machado afirmou que ‘contatou uma das empresas que pagavam recursos ilícitos oriundos de contratos com a Transpetro (Camargo Corrêa) e foi viabilizado então o apoio via doação oficial’.

“No caso de Ideli Salvatti, foi feito um repasse de R$ 500 mil, pela Camargo Corrêa, no ano de 2010”, afirmou.

A reportagem não conseguiu contato com a Galvão Engenharia. (Continua no Estadão).

O fim de semana que Gleisi adoraria esquecer

Gleisi "Narizinho" Hoffmann, senadora e presidente do PT, foi derrotada duas vezes no mesmo dia: na Alemanha e em Maringá. Texto de Augusto Nunes:


Uma grande notícia vinda da Alemanha, transmitida a Gleisi Hoffmann por uma fonte não identificada, fez a presidente do PT acreditar que viveria um grande fim de semana. Já entusiasmada com o lançamento em Maringá do “Comitê em Defesa da Democracia, do Estado Democrático de Direito e do Direito de Lula ser Candidato”, ela soube no sábado que a torcida do Bayern de Munique, durante o jogo contra o Bayer Leverkusen, havia homenageado o ex-chefe de governo brasileiro condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

“Show de torcida!!”, começou a mensagem no Twitter reproduzida pelo Antagonista e ilustrada por uma foto de parte da plateia. “Recebi esta imagem, que mostra uma faixa FORZA LULA”, decolou a tuiteira. Analfabeta também em futebol, nem desconfiou que enxergara um segundo L onde havia um C, encoberto pelo corpo de um espectador. Tampouco lhe ocorreu que, se estivessem apoiando Lula, os alemães se expressariam em português. Usaram Forza de vez de Força porque o alvo da homenagem era o italiano Luca Farnesi, 44 anos, gravemente ferido durante uma briga entre torcidas rivais. Confira a derrapagem:


A vigarice difundida por Gleisi já era um notável sucesso de público e um retumbante fracasso de crítica quando foi apagada e trocada por uma sopa de letras que tentou transferir a culpa para a imprensa. 

Derrotada na Alemanha, Gleisi certamente imaginou que iria à revanche no duelo programado para o mesmo sábado no interior do Paraná. Convocados pela presidente do partido, milhares de militantes agrupados nos comitês que fundou transformariam 13 de janeiro no “dia do esquenta nacional das manifestações favoráveis ao ex-presidente Lula”. Os atos de protesto contra a provável condenação do chefão em segunda instância deveriam chegar ao clímax em Maringá, onde nasceu o juiz Sérgio Moro. Milhares de conterrâneos mostrariam publicamente que os crimes atribuídos a Lula não passam de “perseguição política”.

Num vídeo gravado para garantir o êxito da manifestação na terra de Moro, Gleisi capricha no palavrório da grife 171. “Compareça lá, você que defende a democracia e sabe o quanto isso é importante pro nosso país, pra nossa história, pro nosso povo. Vá lá, dê sua força para depois reproduzir esses comitês, não só por Maringá, mas por todos os municípios que nós temos aí, na região norte do Paraná”. Deu tudo errado. Os petistas agrupados no comitê couberam no plenário da Câmara de Vereadores.

Como atesta o vídeo abaixo, bem mais musculosa foi a manifestação que, anabolizada por boatos de que Gleisi e Roberto Requião estariam na cidade, foi às ruas de Maringá para exigir a prisão de Lula e seus quadrilheiros, rechaçar a discurseira malandra do PT e berrar palavras de ordem fortemente críticas aos dois senadores. Nenhum deles deu as caras por lá.

Gleisi pode ter evitado a viagem por cautela. Deve ter visto a foto abaixo, que mostra a reunião inaugural do comitê de Maringá, realizada em 10 de janeiro. Os militantes se reuniram na varanda de uma casa. Caberiam numa van. Forza Gleisi: o que está ruim tem tudo para piorar.

Polarização: a artimanha do populismo lulopetista.

Lula e seus asseclas sempre dividiram o país entre "nós", os senhores da História, e "eles" - todos os que esquerdistas não são. Essa polarização é um fenômeno provocado e implementado durante os governos lulopetistas, principalmente depois dos sucessivos escândalos que lhes são imputados.  Para eles, dane-se a estabilidade. Editorial do Estadão:


A polarização política do País, no grau de acirramento em que se apresenta de uns anos para cá, não é um fenômeno espontâneo, mas provocado. Na verdade, trata-se de uma artimanha criada em laboratório com um fim específico.

Ela deriva de um processo de recrudescimento do discurso político que foi espertamente pensado e implementado durante os governos lulopetistas, principalmente após vir à tona o escândalo do mensalão, como um subterfúgio para manter acesa a chama da militância naquele momento em que a aura de candura e incorruptibilidade do PT começava a ser revelada como a fraude que foi quando o partido, enfim, chegou ao poder.

Autoungido grande benfeitor da Nação, ator de inquestionável poder social e político, era conveniente ao sr. Lula da Silva àquela época encomendar a seu séquito de marqueteiros uma campanha que, artificialmente, dividisse o País entre “nós” e “eles”, sendo “eles” todos aqueles que ousassem fazer oposição ao demiurgo de Garanhuns ou tão somente apontar suas incoerências e seus desmandos.

Assim começava uma cisão criada artificialmente opondo, de um lado, aqueles que estariam lutando por um País “mais justo e igualitário”, identificados com as causas “do povo” e, consequentemente, com o governo petista; e, de outro, os críticos daquela administração, que estariam motivados por interesses elitistas e excludentes, inconformados com a “democratização do acesso aos aeroportos e às universidades” promovida pelo lulopetismo. Evidentemente, uma grande falácia.

Com efeito, em recente artigo publicado no Estado (ver A polarização está na política, 23/12/2017), Marco Aurélio Nogueira observou que o País está mais unido no consenso sobre as duras necessidades da vida cotidiana do que pode fazer parecer uma suposta polarização política que, a despeito das legítimas discordâncias de opinião e visões de mundo que certamente existem, está longe de ser uma marca a alcançar todo o conjunto da Nação, restrita que está aos grandes centros urbanos e, pode-se até dizer, às redes sociais.

Entretanto, se é verdade que o brasileiro médio está longe daquela polarização exacerbada e quer apenas “viver em paz, tocar a vida, criar os filhos, trabalhar e se divertir”, como apontou Nogueira, também é verdade que ele quer que isso tudo lhe seja concedido por obra e graça de governantes dos quais ele se afasta ao dar por concluída a sua participação democrática por meio do voto. A democracia é um processo muito mais complexo e opera em uma dinâmica própria que não termina quando o eleitor registra as suas escolhas na urna.

A História tem mostrado que a ideia de um Estado organizado como provedor geral dos anseios da população e último guardião do interesse público está intimamente ligada ao regime democrático. No entanto, tal forma de organização social tem um elevado custo de materialização que nem todos os cidadãos parecem dispostos a pagar.

É precisamente neste estado de bem-estar social que a maioria dos brasileiros deseja viver, como apontam as pesquisas de opinião, mas sem que, em nome dele, os cidadãos sejam capazes de endossar políticas públicas imprescindíveis à sua implementação.

Um exemplo eloquente dessa particularidade brasileira é o debate acerca da reforma da Previdência. Há pessoas que ainda chegam a negar a própria necessidade de reformar o injusto e anacrônico sistema previdenciário brasileiro, seja por desinformação, seja por defesa de seus privilégios.

Certamente, trata-se de uma reforma dura e impopular, mas é imprescindível para que haja o equilíbrio das contas públicas que permita ao Estado investir em áreas essenciais como saúde, segurança e educação, que concentram a maior demanda popular por serviços públicos de qualidade.

Todos queremos viver em um país estável e equânime. A estabilidade, no entanto, tem um preço e todos precisamos estar dispostos a pagá-lo se quisermos ver nossos sonhos realizados.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Globos de Ouro, elites de palha.

"Há algo de suicida nesse triste espectáculo em que os agentes culturais se voltam contra a liberdade de expressão. Sobretudo, quando o fazem com gosto. Porém, é ainda mais macabro que a elite cultural se disponha a atacar as estruturas tradicionais da nossa civilização, vendo-as como arranjos opressivos e desiguais. Tragicamente, não estão sozinhos nesta sanha". Esclarecedor artigo de António Pedro Barreiro, estudante de Ciência Política, publicado no jornal português Observador:


Não acompanhei a cerimónia completa dos Globos de Ouro, nem estou certo de que sobrevivesse a tal bravata. A coisa, que terá perdido um milhão de telespectadores nos Estados Unidos em relação ao ano passado, parece ter oscilado entre o fervor auto-congratulatório e o activismo político. Os excertos que vi bastaram para me convencer de que o espectáculo está cada vez mais politizado e, por isso, é cada vez menos espectáculo. E tem cada vez menos a ver com cinema. Ainda assim, permite medir o pulso às elites culturais que temos e às sociedades que as ouvem.

A cerimónia acontece num momento delicado para a indústria cinematográfica. Uma profusão de denúncias tem posto a descoberto o modo como o assédio, a promiscuidade e o abuso sexual se normalizaram dentro do sector. O problema é demasiado vasto para que o possamos reduzir à questão da culpa individual. É o próprio ambiente, a cultura dominante de Hollywood, que se tornaram propensos à normalização do abuso. A mesma indústria que se deslumbra com a transgressão sexual e que faz negócio com a banalização do corpo não pode eximir-se de culpas pela cultura de violação que a tomou de assalto.

A cerimónia dos Globos de Ouro teria sido uma belíssima oportunidade para falar de tudo isto. De como o pudor não é um preconceito dos fortes, mas uma salvaguarda dos desprotegidos. De como uma moral sexual radicada unicamente no consentimento se torna menos ética e mais vulnerável às relações de poder. De como as famílias são o resultado natural da convivência humana e a célula fundamental das sociedades, e não um instrumento de opressão e domínio. Ninguém esperaria que os Globos de Ouro se transformassem num tratado metafísico ou antropológico. Mas não teria ficado mal aos grandes nomes da indústria cinematográfica sinalizar uma inflexão de rumo ou, pelo menos, fazer um reconhecimento de culpa. Obviamente, nada disso aconteceu.

Ao invés, a festa do cinema prestou-se a ser trincheira de uma guerra cultural. O humorista que a apresentou começou por pedir desculpa por não ser uma mulher. A meio do seu monólogo, convidou pessoas da assistência – duas actrizes caucasianas e outra asiática, uma actriz negra e um actor homossexual – a contar as piadas que ele, enquanto homem caucasiano e heterossexual, sentia não poder contar. Não era ironia. Era a ideia bizarra e aparentemente consensual de que a mesma piada, contada por pessoas de raças, sexos ou orientações sexuais distintas, tem um valor diferente. Nos Globos de Ouro, portanto, fez-se humor através da discriminação e da autocensura.

Há algo de suicida nesse triste espectáculo em que os agentes culturais se voltam contra a liberdade de expressão. Sobretudo, quando o fazem com gosto. Porém, é ainda mais macabro que a elite cultural se disponha a atacar as estruturas tradicionais da nossa civilização, vendo-as como arranjos opressivos e desiguais. Tragicamente, não estão sozinhos nesta sanha.

Os novos feminismos entretêm-se a denunciar a masculinidade tóxica e os privilégios estruturais que a sociedade patriarcal concede aos homens. Em Los Angeles, marcham pelo direito à nudez e, em Londres, aplaudem a proibição da nudez na publicidade. Em Portugal, pedem que se diga “todos e todas” e, no Reino Unido, querem pronomes neutros em relação ao género. Também os novos movimentos contra o racismo e a homofobia deixaram de celebrar o sucesso e a superação individual e cultivam agora a força das quotas e da identificação com o grupo. Nos campus universitários, empenham-se em proibir o discurso livre e em policiar as micro-agressões de que se dizem vítimas.

É perigosa a insistência neste novo individualismo, que atomiza as pessoas para depois as rotular de acordo com as suas características físicas dominantes, integrando-as numa narrativa vitimizadora e voltando-as contra a sociedade. Não se trata apenas do discurso excêntrico de um punhado de famosos em festa. É o vocabulário novo de uma guerra cultural que nos ameaça a todos. E, se queremos responder-lhe, precisamos mais do que nunca de um discurso conservador – embora não necessariamente moralista –, capaz de ir além da obsessão sensaborona com o défice e a economia e de formular um projecto cultural livre, fundado nos princípios civilizacionais do Ocidente.

Não imagino o que se escreverá, daqui a uns séculos, sobre nós; sobre os nossos complexos de culpa e as nossas vitimizações. Espero que possa escrever-se que não nos deixámos vergar por eles. Que não conseguiram calar-nos. E, sobretudo, que não tivemos vergonha de ser quem somos.

Uma breve defesa do cromossomo Y

O conceito de igualdade, escreve Vilma Gryzinski na edição impressa de Veja, foi carregado nas costas do homem branco:


O poderoso de Hollywood vê uma reportagem que exalta partes corporais de uma atriz iniciante, manda chamá-la para um teste, pede para ver as tais partes. Tornam-se amantes, e ela aparece em muitos filmes dele.

Harvey Weinstein ou Cecil B. DeMille? O segundo, é claro. A atriz era Julia Faye e a parte anatômica eram os pés, fetiche do diretor de ego de proporções bíblicas, como seus filmes mais conhecidos. Era também republicano, macarthista (amigo do Joe McCarthy original) e até antissemita, pelo menos antes de descobrir que a mãe era de origem judia. “Vocês estão aqui para me agradar, nada mais interessa”, dizia, à la Trump, para atores e extras, a quem tratava com igual desprezo, passando-lhes sermões de horas (“Posso deixar Jesus se sentar? Estou segurando ele há um tempão”, pediu numa dessas “fideladas” o intérprete cansado de Judas Iscariotes em Rei dos Reis).

Quem se lembra dessas coisas certamente não falou nada durante a festa de premiação do cinema em que muitas das mulheres mais lindas do planeta usaram vestido preto para enterrar o Homo hollywoodianus branco e eleger a apresentadora negra Oprah Winfrey, contemplada com o prêmio que leva o nome de DeMille, como a próxima presidente dos Estados Unidos. Dificilmente as muitas contradições desse espetáculo da elite da beleza e da fama teriam resumo mais realista do que o comentário de um leitor algo exasperado diante dos decotes até a cintura das militantes mulheres de preto: “Elas mostram os peitos e não querem que a gente olhe”.

No mundo habitado pela “gente”, um decote infinito numa mulher bonita desencadeia olhares e talvez até alguma ­outra coisa, mas as noções fundamentais do que é certo e do que é errado, geralmente “como meu pai ensinou”, não permitem que o envolvido faça alguma coisa mais séria do que a si mesmo de bobo. Quanto mais enraizadas essas noções, que também podem ser chamadas de superego, mais os homens são seguros de si mesmos e do papel que a força física superior lhes confere. Proteger os mais fracos e até se sacrificar por eles não são responsabilidades fáceis. Faça-se o “teste do Titanic”. Das 2 200 pessoas a bordo, salvaram-se 700. Entre as 425 mulheres, foram 316 sobreviventes. Dos 1 690 homens, 338. Leonardo DiCaprio não estava entre eles.

Em defesa do cromossomo Y — descoberto por uma mulher, a bióloga americana Nettie Stevens —, também não custa lembrar o arco histórico que começa em algum ponto da Grécia antiga e desemboca nos conceitos contemporâneos de igualdade. No lugar onde nasceram a democracia, a filosofia e os fundamentos do pensamento científico, as mulheres ficavam trancadas no gineceu e todo homem com alguma posição social só queria saber de seu paidika, ou seu garoto. Tipo o roteirista bonitão por quem a atriz decadente Norma Desmond se apaixona e que termina assassinando em Crepúsculo dos Deuses, o filme em que DeMille faz o papel de si mesmo. Sem os cromossomos Y e sua extraordinária trajetória no mundo ocidental, seria possível uma mulher protagonizar em 1950 a autorreferente versão hollywoodiana de uma tragédia grega?

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2017, edição nº 2565

Ideologia de gênero: ditadura internacional?

Agustín Lage, autor de El libro negro de la nueva isquierda (ideologia de género o subversión cultural) e editor do site argentino Prensa Republicana, escreve sobre as últimas tramoias dessa ideologia esquerdista:


El pasado 9 de enero conocimos que la Corte Interamericana de Derechos Humanos emitió una Opinión Consultiva apoyando con determinación la ideología de género. La opinión fue peticionada por Costa Rica, con claros objetivos políticos: el oficialismo es consciente de que le costará imponer la ideología de género en su estructura legal sin apoyo externo. Hace algunas semanas, valga recordar, miles de ciudadanos costarricenses —pueblo de escasa efervescencia política— salieron a las calles a marchar contra la ideología de género.

En resumidas cuentas, la Corte manifestó que la llamada “identidad de género” es ‘‘la vivencia interna e individual del género tal como cada persona la siente, la cual podría corresponder o no con el sexo asignado al momento del nacimiento’’, para luego insistir en que existe un “derecho a la identidad de género”. Sabemos bien que, en este contexto, “derecho” no significa libertad de vivir su sexualidad e identidad como le plazca a cada quien, sino obligación para los demás de ser partícipes de lo que es, en rigor, una fantasía personalísima.1

Así por ejemplo, la Corte nos dice que es un “derecho humano” que el Estado modifique los registros y documentos de identidad de las personas, sin considerar nada más que su “auto-percepción”: ya no se le puede exigir a nadie siquiera acreditaciones médicas, quirúrgicas o psicológicas. Si la auto-percepción de un individuo pasa a condicionar la percepción estatal entera, esto significa que, por añadidura, condiciona la percepción de la sociedad toda. ¿Por qué un equipo de hockey femenino, por ejemplo, debería a excluir de su plantel a un hombre que, en virtud de su auto-percepción, el Estado lo ha consagrado como mujer?

Por otra parte, la Corte establece del mismo modo que cualquier unión constituye familia y, por lo tanto, que de cualquier unión entre personas, independientemente del género y la orientación sexual de sus partes, derivan los mismos derechos inherentes al matrimonio. ¿Qué es esto si no la imposición externa del “matrimonio” homosexual y la consiguiente adopción de menores por parte de éste?

En efecto, aquello de “Opinión Consultiva” es eufemístico. La “opinión” de la Corte tiene efectos jurídicos, políticos y administrativos en todos los Estados que son parte de la Convención Americana: 22 en total. La Corte lo deja muy en claro cuando, a colación de su apoyo a la ideología de género, sentencia que “se estima necesario que los diversos órganos del Estado realicen el correspondiente control de convencionalidad aplicando los estándares establecidos en esta Opinión Consultiva”. Por ello, el Tribunal insta “a esos Estados a que impulsen realmente y de buena fe las reformas legislativas, administrativas y judiciales necesarias para adecuar sus ordenamientos, interpretaciones y prácticas internos”.

El poder en la sociedad posmoderna, al decir de Toni Negri, está descentrado. La soberanía de los Estados-nación es cosa del pasado. Las realidades nacionales son hoy un producto de la doble determinación de un poder interno y otro internacional. En este caso, el poder no se divide: se multiplica. En virtud de su dimensión internacional, se vuelve ineludible.

No se trata, desde luego, de un poder democrático. Si el ideal democrático puede definirse a partir de un régimen político que hace emanar el poder desde el pueblo para gobernar al pueblo, y que en la práctica se traduce en la determinación de la voluntad ciudadana con arreglo al uso de instrumentos electorales, el actual orden internacional carece de todos estos componentes. Todavía más: destruye los regímenes democráticos de los Estados que han optado por ellos, en la medida en que las decisiones de las Organizaciones Internacionales se imponen sobre nuestras sociedades en un movimiento que va de arriba abajo, no de abajo arriba.

¿Qué rol puede tener un Congreso Nacional en la cuestión del “matrimonio” homosexual, después de esta “Opinión Consultiva” de carácter imperativo? ¿Qué facultades tendrá en otros asuntos como la adopción homoparental? Ninguno. Estas cuestiones fueron ya resueltas y decididas no por aquellos connacionales que la ciudadanía eligió como representantes del pueblo, sino por 9 personas extranjeras que tienen poder sobre 22 Estados americanos y sus respectivas sociedades.

Si las dictaduras modernas se caracterizan por constituir regímenes políticos que operan con autoritarismo al margen de la voluntad de la ciudadanía, es evidente que estamos en presencia de la formación de una dictadura internacional. El margen de maniobra de los Estados-nación es cada vez más reducido. A partir de ahora por ejemplo, un Estado que no reconozca la adopción homosexual podrá ser denunciado por el lobby LGTB en la Comisión Interamericana de Derechos Humanos, y de ahí tener luego un problema en la propia Corte. ¿Qué gobierno querrá ganarse un problema de este calibre para el Estado bajo su gestión?

En las dictaduras modernas, la última evasión que un individuo tenía al alcance frente a los tentáculos del poder era el exilio. Escapar al poder suponía escapar del lugar donde ese poder tenía centro. La actual desterritorialización del poder supone, no obstante, la imposibilidad del exilio. La internacionalización borra todo límite territorial; el espacio se modifica quedando todo determinado por él, lo cual significa que paulatinamente se va borrando toda posibilidad de auto-determinación. ¿Cómo eludir un poder que, a partir de la opinión de 9 personas, condiciona el marco regulatorio, jurídico y administrativo de 22 Estados?

Todavía queda, empero, una esperanza. Dijimos anteriormente que las realidades nacionales son en este momento el producto de dos fuerzas que a veces colisionan y a veces se retroalimentan: el poder interno y el internacional. En un sistema democrático, el poder interno se estructura a partir del voto popular. Los políticos que se lanzan a la carrera democrática, si quieren ganar, necesitan adecuarse a lo que piensan que la ciudadanía piensa. Si se lograra generar movilizaciones de tal magnitud que los políticos percibieran que el precio a pagar por someterse a la Corte Interamericana es mayor al precio de tener eventualmente problemas de derecho internacional con ella, el poder interno podría barrer con el internacional.

Las movilizaciones ciudadanas son de vital importancia como mecanismo de información: en la masa de gente movilizada el político recibe el mensaje de qué tiene que hacer y decir si quiere seguir siendo votado. Allí donde la ciudadanía no se moviliza, los medios de comunicación, los grupos de género y las organizaciones internacionales son los que informan al político.

Hay razones para guardar todavía esperanzas. Lo que no hay son razones para pensar que, de no actuar con urgencia, esa esperanza pueda mantenerse por mucho tiempo más.

Acabou-se a pouca vergonha

Coluna de Carlos Brickmann, mostrando o fim da pouca vergonha no Executivo, no Congresso e no Judiciário, a começar pela Justiça Eleitoral:


As orações dos bons cidadãos foram atendidas: o Brasil promove amplo combate à pobreza (os pobres estão perdendo por 7×1), o Governo tirou milhões da miséria (milhões devidamente embolsados por cidadãos que já estiveram acima de qualquer suspeita), e acabou-se de uma vez a pouca vergonha em Brasília, pois a pouca vergonha que existia já não existe mais.

O caso da nomeação de Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho é um fim de feira. E não apenas pela escolha para o Trabalho de uma pessoa já condenada duas vezes em processos trabalhistas: o pior é a entrega pública de um Ministério a Roberto Jefferson, proprietário do PTB e pai de Cristiane. Jefferson prestou um serviço inestimável ao Brasil ao revelar o Mensalão. Mas, para se vingar de José Dirceu, a quem acusava de ter-lhe prometido um pixuleco mais gordo que o efetivamente entregue, Jefferson revelou seus próprios e abundantes ilícitos – tantos que, apesar da delação, foi para a cadeia, de onde saiu há pouco tempo. É ele que manda num dos ministérios. E, para agradá-lo, Temer luta na Justiça para nomear sua filha.

Temer, político experiente, sabe que isso pega mal. Mas quer garantir os votos do PTB para a reforma da Previdência. O problema é que a compra dos votos dos parlamentares mais compreensivos já chegou a tal custo que talvez a reforma da Previdência, economicamente, não valha mais a pena.

Tem mais. Hoje, esta coluna inteira mostra o fim da pouca vergonha.

No Executivo…

O projeto de Orçamento de 2018 enviado pelo Governo ao Congresso prevê R$ 17.818,00 para o Gabinete da Vice-Presidência. Ocorre que o Brasil não tem vice-presidente e não o terá antes de 2019. Verba para que?

O Orçamento prevê também R$ 197,7 milhões para auxílio-moradia da Justiça do Trabalho. O Itamaraty, com 255 postos diplomáticos espalhados pelo mundo, tem menos: R$ 188,534 milhões. Segundo o bem-informado colunista Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br), de Brasília, a Justiça do Trabalho, sozinha, custa mais do que toda a Justiça americana. A população dos Estados Unidos é 50% maior que a do Brasil.

…no Judiciário…

A Justiça trabalhista se esforça para manter-se à frente. O Tribunal Superior do Trabalho está comprando togas, becas e capas novas para seus dez ministros. São togas de gala, togas de serviço, os dois tipos com nomes bordados na parte interna, dez de cada; dez becas de secretário; 50 capas de serventuários; 30 conjuntos de jabor e punhos (os “punhos de renda”), com formato e comprimento sob medida. Valor da licitação: R$ 40 mil.

…na Justiça Eleitoral…

Coisa fina: a empresa Flextronics foi contratada pelo Tribunal Superior Eleitoral para desenvolver a impressora que, acoplada à urna eletrônica, imprima os votos, dificultando fraudes. Algumas curiosidades: dois centros de excelência de tecnologia avançada, o IME, Instituto Militar de Engenharia, e o ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica, se colocaram à disposição do TSE para desenvolver o projeto, a preço de custo; o TSE contratou a Flextronics, sem licitação.

A Flextronics investiu no projeto dinheiro do TSE, R$ 7,5 milhões, para depois vender este projeto ao próprio financiador. As urnas serão 30 mil, quando seriam necessárias, por lei, 600 mil. E quem ganhou a licitação para vender as impressoras? Pois é: a Smartmatic, a empresa de origem venezuelana que já fornecia ao Brasil.

…no Congresso…

Diz o artigo 57 da Constituição Federal, a Constituição Cidadã: “O Congresso Nacional reunir-se-á, anualmente, na Capital Federal, de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto a 22 de dezembro. Parágrafo 1º: As reuniões marcadas para essas datas serão transferidas para o primeiro dia útil subsequente, quando recaírem em sábados, domingos ou feriados. ” Só que não: 2 de fevereiro cai na sexta, e o retorno dos parlamentares, após as férias de fim de ano, deveria ocorrer no dia 5. Mas dia 13 é terça-feira de Carnaval. Dia 19 é segunda, e trabalhar na segunda é para quem não tem foro privilegiado nem auxílio-moradia. Os primeiros a voltar, portanto, chegarão ao Congresso no dia 20. A maioria volta mesmo é no dia 21.

…e os candidatos?

A equipe de Lula está convencida de que ele não será candidato apenas se não quiser. Se o recurso contra a sentença de primeira instância, que o condenou a nove anos e meio de prisão, for negado, ele cai na Lei da Ficha Limpa e não pode ser candidato; e pode ser preso imediatamente. Mas não é bem assim. O ótimo repórter Gabriel Manzano, no O Estado de S.Paulo, apurou cada uma das hipóteses – inclusive a pior para Lula, ser derrotado por 3×0. Os recursos no tribunal podem levar seis meses; e ainda pode recorrer ao STJ e Supremo. Se disputar a eleição e ganhar, quem o segura?

Quanto a Bolsonaro, disse a uma repórter que usava o auxílio-moradia, tendo casa em Brasília, para comer gente. Perdeu-se na primeira pergunta. (Chumbo Gordo).

A conta do Estado do bem-estar

Criado pela Constituição de 1988, o Estado de Bem-estar Social consome tantos recursos quanto seus equivalentes em países desenvolvidos, mas os serviços oferecidos aos cidadãos são de quinta categoria. Editorial do Estadão:


O Estado do bem-estar social, criado pela Constituição de 1988, consome tantos recursos quanto seus equivalentes em países desenvolvidos. No entanto, os serviços oferecidos aos cidadãos diferem visivelmente, e qualquer paciente de hospital público ou aluno da rede pública no Brasil intui logo que não está na Noruega – exemplo de Estado do bem-estar social que consegue ser muito mais eficiente que o brasileiro gastando menos em relação ao PIB.

A explicação para essa distorção, dada pelo secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Mansueto Almeida, ao jornal Valor, é apenas uma: o rombo da Previdência, que drena os recursos que deveriam financiar educação, saúde e outras necessidades sociais. Assim, é espantoso que alguns dos mais barulhentos defensores da manutenção do Estado do bem-estar social estejam igualmente na vanguarda da defesa do atual sistema previdenciário, que é deficitário porque estimula aposentadorias precoces e porque privilegia escandalosamente a elite do funcionalismo público. Essa situação traz graves prejuízos para o conjunto dos contribuintes, em vários aspectos.

O problema mais imediato é a necessidade de recorrer ao dinheiro dos impostos para cobrir o rombo da Previdência, que em 2017, até outubro, alcançou R$ 257 bilhões, 12% superior ao déficit de 2016. Um levantamento feito pela Folha de S.Paulo mostra, por exemplo, que em 2017, até outubro, cada servidor civil da União aposentado recebeu dos contribuintes incríveis R$ 63,3 mil, dinheiro que deveria ter sido destinado a outros fins – e o que não falta, no Brasil, são setores importantes carentes de recursos. Os impostos cobrem o déficit dos sistemas previdenciários público e do INSS, mas os grandes destinatários são mesmo os servidores inativos – os da União recebem 13 vezes mais do que os aposentados pelo INSS, enquanto os dos Estados ganham 8 vezes mais. Assim, está mais do que evidente que uma reforma da Previdência, para ser efetiva, deve atacar essa distorção.

É claro que os que hoje se dedicam a sabotar a reforma da Previdência não estão preocupados com o fato de que o déficit do sistema impede que as demais demandas sociais previstas na Constituição sejam atendidas. Ainda que a Previdência não tivesse tal rombo, a ambição do texto constitucional já seria bastante imprudente, pois, como dizia o economista Roberto Campos, “a Constituição promete-nos uma seguridade social sueca com recursos moçambicanos”. O fato é que, com a Previdência a mobilizar grande parte dos recursos públicos para sua solvência, pouco resta para fazer cumprir o que a Constituição promete.

O Brasil gasta o equivalente a 25,7% do PIB com o seu Estado do bem-estar social, enquanto na Noruega esse dispêndio é de 25,1%; na Alemanha, de 25,3%; e na Grã-Bretanha, de 21,5%. No entanto, mais da metade desse gasto no Brasil, informa o secretário Mansueto Almeida, é destinada à Previdência, que ficou com 13% do PIB em 2016, contra 6% para a educação e 4,5% para a saúde. Ou seja, investimos pesado no passado e muito pouco no futuro.

Como resultado, setores considerados essenciais pela Constituição ficam, na prática, com menos recursos. O Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, prevê saúde integral, gratuita e universal, mas apenas 50% do dinheiro gasto nesse setor é público. Mansueto Almeida compara com o sistema britânico, que não é integral – isto é, não cobre todos os procedimentos –, mas ainda assim 85% dos gastos com saúde na Grã-Bretanha são públicos.

A questão de fundo, portanto, é a própria viabilidade do Estado do bem-estar social tal como previsto na Constituição. É preciso aceitar o fato de que nem todos os benefícios e direitos gravados no texto constitucional resultam em ganhos para o País – ao contrário, as distorções graves em alguns setores, como a Previdência, chegam a comprometer a realização de todo o resto. Política social não pode ser resultado apenas de vontade; é preciso que sua implementação respeite a matemática, que costuma ser implacável com os imprevidentes.