quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Estupidez de "gênero" não tem limites no Canadá: até bebês são "racistas".

O bebê fascistão.
Ricardo Bordin tem razão em chamar de justiceiros sociais os canadenses que já patrulham até os bebês. A estupidez politicamente correta, realmente, não tem limites. O branquelinho aí da foto deve ser um fascista precoce. Haja mediocridade: 


"Que vergonha: você sai em público com seu filho pequeno e ele fala algo racista que ouviu de alguém ou aprendeu na TV. A maioria dos pais começa a tomar cuidado para não expor as crianças a manifestações racistas a partir da idade na qual ele começa a entender do que se trata. Até então, acreditava-se ser em torno de três ou quatro anos. Mas conforme um novo estudo publicado no jornal Child Development, bebês de seis meses de vida podem ser racistas também - apenas de uma forma diferente daquela observada em adultos."

"Os bebês tendem a reagir positivamente a adultos de sua própria etnia e negativamente aos demais, afirma o psicólogo Kang Lee, autor do estudo. Os pesquisadores acreditam que se trata de familiaridade: a maioria dos bebês raramente vê adultos de etnias diferentes da sua própria. Na pré-escola, as crianças começam a desenvolver comportamentos sociais e a mostrar preferências por pessoas brancas e formar visões negativas sobre pessoas de cor, independente de sua própria raça."

Dá para imaginar o quão doentio é olhar para um serzinho de seis meses de existência e decidir usá-lo como matéria-prima para formular teorias com viés ideológico segregacionista - disfarçadas de trabalho de cunho científico - só para, ao fim e ao cabo, concluir que supremacistas brancos já saem do útero oprimindo negros? Vou ali vomitar e já volto...

No livro Fatos e Falácias da Economia, o americano Thomas Sowell explica o que este povo tão preocupado com racismo (sem nenhum interesse político envolvido por trás, claro) recusa-se a entender: manifestar preferência por pessoas da mesma etnia é o mecanismo de defesa mais básico (e, portanto, menos eficiente) do ser humano.

A medida que o indivíduo desenvolve-se, ele assimila e cria métodos para identificar qualidades positivas nas demais pessoas que, eventualmente, irão dispensar por completo a necessidade de lançar mão deste instinto elementar (alguém avise os membros do Black Lives Matter, aliás).

E o mesmo aplica-se ao conjunto da sociedade: quanto mais ela avança (em termos de aprimoramento intelectual), mais ela tende a abandonar práticas preconceituosas e a classificar seus cidadãos com base em suas ações e outros traços não relacionados ao biotipo - e esta mudança de paradigmas é fomentada não por uma suposta "preocupação com as minorias", mas sim pelo anseio de obter maiores benefícios em proveito próprio.

O exemplo fornecido por Sowell é a América do período dos primeiros movimentos migratórios oriundos da Europa. O economista relata que, nesta época, muito dificilmente um comerciante contrataria um irlandês, dada a fama de brigões que tal povo carregava. Nenhum empreendedor queria arriscar seus negócios vendo seu empregado sair na mão com um cliente - e era muito difícil obter informações sobre o passado dos candidatos a postos de trabalho as quais pudessem, quem sabe, contrariar este esteriótipo.

À medida que os Estados Unidos consolidaram-se como nação, também a maioria das empresas amadureceu a ponto de conseguir selecionar seus trabalhadores com base em critérios totalmente diversos daquela análise simplista fundada na etnia. Atualmente, os departamentos de recursos humanos de grandes corporações conseguem traçar um perfil completo de cada candidato, a fim de constatar qual deles apresenta maior potencial para determinada atividade, deixando de lado, destarte, a questão étnica.

Tudo em nome de maximizar os lucros e reduzir os prejuízos, por óbvio. Estes são os estímulos que levam um patrão machista a contratar uma mulher competente no lugar de um homem relapso, por exemplo. Em decorrência, empresas públicas ou organizações sem fins lucrativos, as quais não possuem tais estímulos, podem "se dar ao luxo" de serem racistas sem graves consequências.

Direcionando tal lógica ao bebê: é claro que ele não é capaz de discernir entre pessoas boas e ruins quando ainda sequer consegue caminhar ou falar. Em seu afã de manter-se em um ambiente relativamente seguro após sair do conforto do útero da mãe, ele parte para o apelo visual dos indivíduos, e parecer-se com seus pais ajuda bastante neste processo.

Quanto ele crescer (especialmente se não ingressar em uma universidade federal), há boas chances de que ele perceba, por meio do resultado de suas interações e relacionamentos, que julgar pela cor da pele não é um bom parâmetro para afirmar se vale a pena ser amigo de fulano ou beltrano. Thomas Sowell, para quem não sabe, é negro; Thomas Piketty, a seu turno, é branco; donde se conclui que só mesmo um bebê (ou marxistas dotados de inteligência similar) para achar que o segundo é melhor economista que o primeiro julgando apenas pela fenótipo.

É interessante notar: esta turba "progressista" repete ad nauseam que infratores "menores de idade" não podem ser responsabilizados por seus atos. Será que vão querer prender por racismo recém-nascidos agora? Acho que é contradição demais para a cabecinha deles; melhor correrem em disparada para o safe space.

Este tipo de disparate travestido de ciência vem somar-se a outros fatores (entre eles o prolongamento da fase de juventude por tempo indeterminado, a crescente secularização no Ocidente e a excessiva intervenção estatal nas relações familiares) que, combinados, insuflam o medo de criar e reduzem o ânimo de ter filhos - fenômeno facilmente observável hodiernamente.

Nada é por acaso: assim fica mais fácil tanto forjar apoiadores para leis que autorizem o aborto, quanto reduzir as taxas de natalidade a níveis tão baixos que "justifiquem" escancarar as fronteiras dos países (como já ocorre na Europa), para o regojizo dos entusiastas da governança global. Obama deve ter sorrido de orelha a orelha ao ler esta matéria, entre uma palestra e outra...

A última das esquerdas: dizer que Adam Smith não era liberal.

Agora querem pintar o gênio britânico como social-democrata. Valha-nos Deus, brada o articulista Carlos Rodríguez Braun em artigo publicado no Cato:


La crisis del socialismo animó aún más a las izquierdas a estar todo el rato hablando de la crisis del capitalismo, en particular después de la crisis de 2007, cuando los “socialistas de todos los partidos” dieron rienda suelta a una alegría que quizá no habían sentido desde los años 1930. La diferencia es que entonces los antiliberales aún podían alegar que la alternativa al capitalismo era un éxito. Esa mentira es inviable hoy, y por eso la izquierda ya no esgrime modelos: los últimos fueron Venezuela y los otros populismos latinoamericanos, que el pueblo ha tenido a bien rechazar a golpe de urna. ¿Qué hacer? Pues fabular, como siempre, pero ya no agitando paraísos reales, que nunca existieron, sino acusando al capitalismo de toda clase de males, que reclaman un urgente recorte de derechos y libertades a cargo de los Estados, ahora, eso sí, democráticos.

En el mundo de la historia de las ideas ese apego por desviar la atención ha tenido una curiosa derivada en el intento de demostrar que Adam Smith no era liberal: “se acerca más, de hecho, a la socialdemocracia del Estado de bienestar que al liberalismo”, dice Samuel Fleischacker, acercándose de hecho a lo que sentencian los austriacos más radicales como Murray N. Rothbard.

He procurado contribuir a este debate (“Otro problema de Adam Smith: el liberalismo”, aquí), que tiene varios aspectos interesantes. El primero es que los matices en el liberalismo de Smith son muy conocidos, y Jacob Viner los apuntó ya en 1927.

Las facetas intervencionistas del filósofo moral escocés son indudables, empezando por el tercer deber del soberano en su “sistema de la libertad natural”, que abre la puerta a una amplia agenda estatal, hasta la acuñación de moneda, las empresas públicas, las represalias arancelarias, y la regulación de la banca, las profesiones, el comercio y los precios en diversas actividades. Llegó a respaldar monopolios temporales, y las mercantilistas y proteccionistas Leyes de Navegación, “quizá la reglamentación comercial más sabia de Inglaterra”. Pensó que cabía imponerles a los ciudadanos “buenos oficios recíprocos”, subrayó el problema de la desigualdad, tuvo palabras muy duras hacia los empresarios, reclamó la imposición progresiva, y sostuvo que “para cualquier persona, un impuesto es un emblema, no de esclavitud sino de libertad”.

Quería regular también el tipo de interés legal para que no fuera muy elevado, e incluso recomendó intervenir para frenar lo que para él era la principal palanca del crecimiento económico: la división del trabajo, porque podía resultar en un grave problema de alienación, como denunciaría Marx un siglo más tarde.

¿Tienen razón, pues, los que alegan que Adam Smith no era liberal? No, no la tienen. El pensamiento de Smith es matizado y complejo, pero, a pesar de todo, apunta claramente en favor del liberalismo. Yo que usted no me perdería este rincón el próximo lunes.

(Este artículo fue publicado originalmente en Expansión (España) el 21 de septiembre de 2017).

Nem presidência nem presídio: hospício.


Por que a esquerda odiou o discurso de Trump na ONU?

Donald Trump escandalizou a esquerda com seu discurso na ONU. Lá, não fez nada demais: apenas promoveu ideias conservadoras clássicas. Artigo de Marc Thiessen, ex-redator dos discursos de Trump, publicado no The Washington Post (aqui, via Gazeta do Povo):


Quando Donald Trump era candidato à presidência, ele criticou as políticas intervencionistas dos seus antecessores Republicanos e Democratas, criando um temor de que ele criaria uma nova era de isolacionismo norte-americano. Mas na ONU, essa semana, Trump apresentou uma visão claramente conservadora para uma liderança global americana baseada no princípio da soberania nacional.

Julgando os críticos da esquerda por suas reações histéricas, eles parecem temer que o presidente siga os mesmos passos de George W. Bush. A Senadora Dianne Feinstein falou que o discurso foi “bombástico”. A representante democrata Barbara Lee disse que ele representa uma “abdicação de valores”. Hillary Clinton disse que era “obscuro” e “perigoso”. Essa é a crítica liberal padrão ao internacionalismo conservador. A esquerda dizia a mesma coisa sobre o presidente Ronald Reagan. 

Em Nova York, Trump convidou outras nações responsáveis a se juntarem aos EUA no que chamou de “praga” composta de “um pequeno grupo de regimes que… não respeitam nem seus cidadãos nem o direito a soberania de seus países”. Essa missão pode ser cumprida, segundo Trump, se reconhecermos que “os estados nação continuam sendo o melhor veículo para elevar a condição humana”. 

Ele está certo. O comunismo e o fascismo não foram derrotados pelas Nações Unidas, e instituições globais não alimentaram drasticamente a expansão da liberdade e prosperidade humanas no último quarto de século, desde o colapso da União Soviética. O que inspirou e possibilitou a disseminação da paz, da democracia e das liberdades individuais foi a projeção de poder dos países democratas, comandados pelos EUA. 

É isso que precisamos hoje - e o que Trump prometeu em seu discurso. Ele relança sua política internacional “America First” (EUA Primeiro) não como uma chamada ao isolacionismo, mas como uma chamada para a liderança global das nações responsáveis. Ele abraça o Plano Marshall - o esforço massivo dos EUA para apoiar a recuperação da Europa no pós-guerra. E declara que “se os justos não confrontarem os poucos malvados, o mal vai triunfar” porque “quando as pessoas e as nações decentes se tornam observadores da história, as forças da destruição juntam mais poder”. 

Trump continuou no tema da soberania para desafiar os grandes adversários americanos, a China e a Rússia, insistindo que “devemos rejeitar as ameaças à soberania vindas da Ucrânia ao Mar da China Meridional”. 

O presidente tinha também uma mensagem para a Coreia do Norte. Ele se referiu ao líder do país, Kim Jong Un, como “Rocket Man” (Homem Foguete) e disse que Kim “está em uma missão suicida para si mesmo e seu regime”. Ele deixou claro que os EUA “têm muita força e paciência, mas que se forem forçados a defender a si ou seus aliados, não terão outra escolha senão eliminar a Coreia do Norte”. Essa mensagem deixou algumas pessoas balançadas, mas esse era o objetivo. Durante a Guerra Fria, líderes soviéticos realmente acreditavam que Reagan estava se preparando para a guerra e que faria o primeiro ataque. Essa crença é um dos motivos pelos quais uma guerra cataclísmica nunca aconteceu. 

Se esperamos evitar uma guerra com a Coreia do Norte hoje, o regime de Pyongyang deve ser levado a acreditar que Trump está, como disse na ONU, “pronto, desejoso e capaz” de agir militarmente. Seu tom pesado não era direcionado apenas a Pyongyang, mas também para a China e outros países cuja cooperação é necessária para espremer o regime coreano e achar uma solução pacífica. Essas palavras devem ser seguidas de passos concretos para deixar claro que são sérias e que a Coreia do Norte não pode ameaçar cidades americanas de aniquilação nuclear. 

Trump se posicionou ao lado da moralidade na política internacional, defendendo explicitamente aqueles que buscam liberdade ao redor do mundo. Ele prometeu apoiar “o sonho constante dos cubanos de viverem em liberdade”. Ele declarou também que “regimes opressivos não resistirão para sempre” e acusou o regime iraniano de mascarar “uma ditadura corrupta com guias falsas de democracia”. Ofereceu apoio, porém, aos “bons iranianos que querem uma mudança”. Ele falou ainda sobre “o regime criminoso de Bashar al-Assad” na Síria, cujo “uso de armas químicas contra os próprios cidadãos, incluindo crianças inocentes, choca a consciência de qualquer pessoa decente”. 

O melhor momento do presidente foi quando chamou atenção para o que chamou de “ditadura socialista” de Nicolás Maduro, declarando que “o problema na Venezuela não é que o socialismo foi mal implementado, mas que o socialismo foi fielmente implementado”. Trump prometeu ajudar os venezuelanos a “reconquistar a liberdade, retomar seu país e restaurar sua democracia”. 

Esse é o clássico internacionalismo conservador: uma defesa vigorosa da liberdade, um desafio arriscado para ditadores perigosos e um comprometimento ao princípio de paz pela força. Não é à toa que os críticos de esquerda de Trump ficaram tão incomodados.

Pessoas que querem mudar a natureza humana - eis o totalitarismo.

"A natureza humana é plástica por um decreto do Estado, que só encontra felicidade em, em nome da nossa própria libertação, estender o seu poder sobre os mais íntimos detalhes da vida individual. Na prática, isso traz o benefício suplementar de calar as questões políticas verdadeiramente substantivas. Dantes, chamava-se a isso alienação. O totalitarismo, versão democrática, não quer outra coisa. O tédio vem também daí: já sabemos como vai ser". Artigo do professor Paulo Tunhas, colaborador do jornal Observador, analisando os malefícios da "ideologia de gênero":


É verdade que ainda me surpreendo de vez em quando. Mas o sentimento mais recorrente, desde há algum tempo, é mesmo o tédio. Estou-me a referir aos furores legislativos em matérias que têm a ver com o que dantes se via como vida privada, nomeadamente com a sexualidade. Segundo li, os maiores de dezasseis anos poderão em breve escolher em Portugal qual o seu “género”, e em Espanha o Podemos reivindica naturalmente maior precocidade: os doze anos. E concebem-se penas pesadas para os pais que se oponham a tais decisões da sua prole.

O tédio tem certamente a ver com a frequência com que estas questões são apresentadas no chamado espaço público (a repetição, salvo para os maníacos, afasta a curiosidade) e com o desinteresse político que me sugerem. No que diz respeito ao essencial, a complexidade da psique humana em matéria de sexualidade, Freud, há mais de um século, disse o que havia para dizer, e é muito curioso que, sinal dos tempos, o seu nome se veja arredado de qualquer discussão. Não é só ignorância: Freud, para quem se der ao trabalho de o ler, continua a inquietar. Para mais, e continuando no essencial, a vida dos outros é a vida dos outros e quanto menos nos metermos nela, pretendendo dirigi-la, melhor. Mas, é claro, a questão que hoje é discutida pouco se ocupa destas coisas. Mais uma vez sinal dos tempos, ela centra-se por inteiro na legislação. A legislação tomou todo o espaço do essencial e a complexidade da psique não é para aqui chamada. O inconsciente, para voltar a Freud, não existe no quadro legal. A única coisa que interessa é o modo como o Estado nos pode obrigar à liberdade concebida segundo as modas quadriculadas do dia.

Francisco José Viegas, discutindo brevemente esta questão ontem num artigo do Correio da Manhã, citou o escritor inglês Martin Amis: “Pessoas que querem mudar a natureza humana – é isso o totalitarismo”. A frase toca sem dúvida em algo de importante, e algo que tem uma história que vem de há muito atrás, no início nada tendo a ver com o Estado, totalitário ou outro: a plasticidade do ser humano. Num escrito célebre, publicado em 1480, o humanista italiano Giovanni Pico della Mirandola afirmou a ilimitação do indivíduo. Deus – ele chamava-lhe: “o óptimo artífice” – fez com que os homens tivessem em si algo de todas as outras criaturas, de modo a nenhuma limitação os constranger. Mais: cada ser humano decide aquilo que é, cria a sua maneira particular de ser, nascer é exactamente poder ser aquilo que se quer. Cada um é assim como um camaleão, pronto a se metamorfosear naquilo a que aspira. Podemos descer na escala dos seres até aos animais ou tornarmo-nos divinos, de acordo com a nossa vontade. O ser humano não se encontra preso a nenhum lugar específico.

Pico não pensava certamente nas matérias que hoje ocupam os legisladores, mas a questão da plasticidade dos seres humanos estava no centro das suas preocupações. No entanto, essa plasticidade era para ele sinal de uma mobilidade cósmica dos seres humanos, que correspondia efectivamente a um gesto de liberdade essencial. A coisa no entanto muda com o início do século XIX. Cada um à sua maneira, Hegel, Auguste Comte e Marx desenvolveram filosofias que enquadraram essa plasticidade da natureza humana no contexto de teorias que apontavam, embora com óbvias e significativas diferenças, para a necessidade de uma evolução (ou, se se quiser, de um progresso) orientada para um fim. Os modos de ser humano mudariam necessariamente de acordo com uma sucessão mais ou menos rígida de etapas com vista à realização plena das suas possibilidades.

Essa visão das coisas encontra-se ainda, de uma maneira ou outra, presente entre nós. O exemplo mais notório, embora não o único, é o discurso do marxismo ordodoxo do PC (lembram-se do “homem novo socialista”?). No entanto, sensivelmente a partir dos anos oitenta do século passado, uma doutrina algo equívoca mas com indiscutível sucesso mediático, o chamado “pós-modernismo”, proclamou, pela voz de um dos seus teóricos mais eminentes, o filósofo francês Jean-François Lyotard, o fim das “grandes narrativas”. Significava isso, entre outras coisas, que as teorias da história teleologicamente orientadas (isto é, concebidas a partir da ideia de um fim, previsto desde o início, que haveria necessariamente de se realizar: o comunismo, por exemplo) se encontravam ultrapassadas. Reinaria antes uma nova pluralidade, que não importa aqui detalhar.

O que interessa salientar é que, nessa dissolução da ideia de um fim único da história e na pluralidade conquistada de fins diversos, permaneceu, na prática, a ideia da necessidade da realização de cada um desses fins. As tais “grandes narrativas” bem podem ter colapsado, embora tal seja matéria para discussão, mas o impulso humano para detectar necessidade na realização dos vários estilhaços resultantes da explosão das causas únicas não colapsou de forma alguma.

Mais do que isso. À sombra protectora de um Estado tutelar guiando os nossos mínimos passos, cujo advento Alexis de Tocqueville, para sua grande glória, previu quase até ao mais ínfimo detalhe no século XIX, o universo das causas necessárias e urgentes proliferou como nunca. Talvez, como disse, as “grandes narrativas” tenham conhecido um fim. Mas, em sua substituição, lidamos quotidianamente com um universo em expansão de “pequenas narrativas”. E os seus apóstolos não são menos ferozes nem menos convictos do que os das outras. Como não é menos forte a sua convicção na plasticidade da natureza humana e do papel que o Estado tem em a detalhar no papel da lei.

É nisto que estamos. E a palavra “totalitarismo” que Martin Amis usa convém aqui plenamente. Porque o conceito de “totalitarismo”, um conceito razoavelmente equívoco, como o são todos os conceitos de teoria política, implica não apenas, como, por exemplo, o de despotismo, um poder autoritário que suprime as opiniões políticas divergentes, mas a intromissão na vida concreta de cada um na sua esfera íntima. Em última análise, a indistinção da esfera pública e da esfera privada. Não se trata apenas de calar as opiniões divergentes (embora isso, é claro, também aconteça), mas sobretudo de afirmar a necessidade de, no nosso próprio coração, pensarmos como o Estado quer. E se isso é feito em nome da nossa própria liberdade, que maravilha que é.

A concepção da plasticidade humana ganha assim uma nova forma inteiramente distinta daquela que gozava em Pico della Mirandola. A natureza humana é plástica por um decreto do Estado, que só encontra felicidade em, em nome da nossa própria libertação, estender o seu poder sobre os mais íntimos detalhes da vida individual. Na prática, isso traz o benefício suplementar de calar as questões políticas verdadeiramente substantivas. Dantes, chamava-se a isso alienação. O totalitarismo, versão democrática, não quer outra coisa. O tédio vem também daí: já sabemos como vai ser.

Culpa do Trump, tudo culpa do Trump.

O presidente dos EUA veio ao mundo para assumir os pecados da humanidade. Agora ele é culpado de ameaçar a Coreia do Norte com a bomba atômica, escreve J. R. Guzzo, da coluna Fatos (Veja.com). O balofo Kim, tadinho, é um menino pacífico, pacífico. De fato, "Donald Trump é o grande Judas multiuso que o mundo tem hoje", graças à idiotia esquerdista mundial:


É curioso. Até alguns dias atrás, qualquer pessoa com a sua atividade cerebral razoavelmente em ordem seria capaz de jurar que quem ameaçava os inimigos, os vizinhos ou o resto do mundo com um ataque nuclear era a Coreia do Norte. Disparou um míssil que sobrevoou o Japão – e se passou de um lado para outro, poderia muito bem cair dentro. O foguete não era um buscapé; era uma bomba atômica. Antes disso, o ditador coreano, indivíduo até agora considerado realmente capaz de detonar armas nucleares de ataque, ameaçou sabe-se lá quantas vezes bombardear os Estados Unidos e quem mais lhe desse na telha. Faz isso há meses, aliás. De repente, vai se ver o noticiário e ficamos informados que quem ameaça a Coreia, e possivelmente o resto da humanidade, é Donald Trump – sim, ele mesmo, o presidente dos Estados Unidos. O que houve com “a narrativa”, como qualquer mané adora dizer hoje, a respeito de qualquer coisa? Houve que Trump anunciou o seguinte: a Coreia do Norte será “destruída totalmente” se jogar uma bomba atômica no país que ele preside.

Ninguém é a favor de um horror desses, é claro – a não ser o próprio ditador da Coreia, caso se acredite no que ele diz. Mas a ameaça passou a ser Trump. O perigo agora é ele. Quem põe em risco a paz mundial é ele. O governante irresponsável é ele. O maluco beleza é ele. Tudo é ele. E o outro? Parece que já não vale mais. Não é “à ganha”; é “à brinca”. Deve ser só o gordinho sinistro dos gibis. No fundo, ele não quer fazer mal a ninguém, coitado. Problema, mesmo, é esse Trump. Daqui a pouco, a continuar assim, teremos a CNBB, as classes artísticas brasileiras e os militantes dos direitos humanos lançando manifestos em solidariedade ao povo da Coreia e exigindo um boicote mundial contra os Estados Unidos.

É possível que tudo isso só exista na mídia, ou muito mais na mídia do que na realidade, como foi com o “bug do milênio”, o fim das reservas de petróleo e o colapso do capitalismo por causa da Grécia. Falam, falam, falam e no fim acaba não acontecendo nada. A bomba atômica só foi usada uma vez na historia mundial, em duas explosões separadas 72 anos atrás. Não quer dizer que não possa ser jogada de novo, mas seria bom admitir que nesse meio tempo houve uma guerra fria inteira, uma guerra no Vietnã, várias guerras do Oriente Médio, etc. – ou seja, não se sai por aí jogando bomba atômica nos outros como se vai na farmácia comprar um melhoral. Mas é justamente para não ter o trabalho de pensar que tanta gente, cada vez mais, recorre à ajuda de Trump. O que seria do mundo se não houvesse aí um Trump, disponível 24 horas por dia, para levar a culpa de tudo? Nada mais cômodo, em momentos de incerteza real ou imaginária, do que acusar alguém e dar o problema por resolvido. Donald Trump é o grande Judas multiuso que o mundo tem hoje.

Camelô de pesquisa acha que o Brasil é um viveiro de idiotas

"Um candidato rejeitado por mais de 50% do eleitorado tem tanta chance de vencer quanto tem Dilma Rousseff de fabricar uma frase com começo, meio e fim". Augusto Nunes, na jugular do tiranete Lula:


Gilberto Carvalho, o ex-seminarista que jamais decorou a segunda parte do Salve Rainha e virou coroinha de missa negra, é a caixa-preta que esconde, entre outros pecados mortais, os cometidos pelo PT em Santo André. Pois o guardião dos segredos que envolvem o assassinato do prefeito Celso Daniel tem mais chances de virar papa do que tem Lula de continuar em liberdade. Mesmo assim, os armazéns de secos, molhados e pesquisas eleitorais continuam tratando Lula como candidato a presidente, acima e à margem das leis. Começando pela Lei da Ficha Limpa.

É mais fácil um José Dirceu arrepender-se do que fez e pretende fazer, e chorar lágrimas de esguicho sentado no meio-fio como na imagem esplêndida de Nelson Rodrigues, do que um corrupto condenado a 9 anos e meio de cadeia (por enquanto) sobreviver ao tiroteio de uma campanha presidencial, municiado por cataratas de revelações ainda sigilosas. Antonio Palocci já mostrou seu poder destrutivo com uma pequena amostra das tenebrosas transações em que Lula se meteu. Mesmo assim, os camelôs de porcentagens fazem de conta que o demagogo agonizante lidera sem sobressaltos a corrida que só terminará em novembro de 2018.

Um candidato rejeitado por mais de 50% do eleitorado tem tantas chances de vencer uma disputa eleitoral quanto tem Dilma Rousseff de fabricar uma frase com começo, meio e fim ─ e sem assassinar o erre final do verbo no infinitivo. Mas os feirantes que oferecem estatísticas ao gosto do freguês camuflam em gráficos miúdos a informação essencial: ultrapassa metade do total a demasia de eleitores que não votarão em Lula de jeito nenhum.

O combate à corrupção tem catacumbas mais urgentes a sanear. Mas não vai demorar o dia em que o Brasil decente terá o prazer de acompanhar, de camarote, a devassa dos institutos de pesquisa que tratam os brasileiros como se fôssemos um bando de idiotas.

A caravana do réu Lula entre Curitiba e Brasília

Ex-presidente ainda será interrogado pelo juízes em quatro das seis ações na Justiça de primeira instância, como aconteceu recentemente na capital do Paraná. Apesar disso, continua em campanha, sob o olhar complacente da Justiça Eleitoral:


Depois de encerrar uma caravana pelo Nordeste e prestes a iniciar uma nova viagem por Minas Gerais em pré-campanha eleitoral, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda vai ter que encarar uma “caravana penal” entre Curitiba e Brasília para se defender dos processos na Lava Jato e na Zelotes. Além da ação do tríplex do Guarujá em que já foi condenado, Lula é réu em seis processos em primeira instância e ainda vai ser interrogado em quatro deles.

O petista esteve em Curitiba na semana passada para prestar depoimento pela segunda vez ao juiz federal Sergio Moro no processo referente ao terreno do Instituto Lula. Dessa vez, a mobilização de apoiadores foi bem menor em comparação com a primeira, em maio, quando foi interrogado no processo do tríplex.

Em maio, os manifestantes pró Lula se reuniram na Praça Santos Andrade, no Centro de Curitiba, e aguardaram mais de quatro horas e meia para a chegada de Lula ao palanque montado no local. Dessa vez, a manifestação ocorreu no Paço da Liberdade – espaço consideravelmente menor – e contou apenas com um trio elétrico, e não com um palco, para receber Lula.

A mobilização menor da semana passada foi calculada pelo próprio ex-presidente, segundo a avaliação do especialista em marketing político e professor de opinião pública da PUC-PR, Marcos Zablonsky. “O que importa nesse momento é a visibilidade do discurso, da fala. As narrativas e essas filmagens são todas guardadas para futura campanha eleitoral”, explica.

“Tem a fala dele, que estava mobilizado com os senadores, era uma outra configuração. Até para não desgastar demais e nem criar um ambiente dentro da própria cidade de polícia. O efetivo da polícia foi bem menor, teve menos ônibus. Eles configuraram de outra forma esse segundo momento”, analisa.

A tendência, segundo Zablonsky, é que a mobilização para um futuro interrogatório em Curitiba, relacionado ao caso do sítio em Atibaia, seja ainda menor e mais pulverizada. Isso porque os próprios movimentos de apoio ao ex-presidente podem perder a força. “Eu acho que ela [manifestação] tende a mudar de configuração. Os movimentos também têm o seu esgotamento natural, em termos de dinheiro para mobilização, têm outras estratégias de comunicação”, explica.

Para o especialista, a estratégia de Lula no âmbito judicial será focada nos advogados de defesa e em formadores de opinião. “Dependendo da posição, o Lula resolva fazer [o próximo interrogatório] por videoconferência. Porque ele desmobiliza também a relevância do juiz, se ele achar que isso é mais interessante”, explica Zablonsky. Lula teve a opção de ser interrogado por Moro via videoconferência na semana passada, mas a defesa do petista negou e preferiu que ele viesse até a capital.

Interrogatórios em Brasília

Dois meses antes de ser interrogado por Moro na Lava Jato, Lula foi ouvido em Brasília em um processo da Lava Jato. O processo é referente à compra de silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró e o Ministério Público Federal (MPF) pediu recentemente a absolvição de Lula no caso. Na ocasião, em março, praticamente não houve mobilização em favor do petista. Apenas cerca de 30 manifestantes se concentraram em frente à Justiça Federal de Brasília no momento do interrogatório.

Para Zablonsky, o fato tende a se repetir nos próximos três interrogatórios de Lula no Distrito Federal. O motivo: o juiz não é Moro. Não há no imaginário popular um embate entre Lula e o magistrado de Brasília.

“É um outro posicionamento. Talvez lá não tenha essa pressão política, esse cenário que estamos vivendo”, diz. “A mobilização em Brasília vai ser completamente diferente, até porque está longe do grande centro da discussão judicial. O centro da discussão judicial está em Curitiba”, completa Zablonsky.

Os três processos em Brasília em que Lula ainda não foi ouvido são referentes à Operação Zelotes. Um deles acusa o ex-presidente de tráfico de influência – ele teria atuado para liberar verba do BNDES em obra da Odebrecht em Angola. No outro, Lula é acusado de receber R$ 6 milhões para favorecer montadoras na edição de medidas provisórias. O terceiro processo é sobre as negociações que levaram a compra, pelo governo brasileiro, de caças Gripen da sueca Saab. Lula também é acusado de corrupção e tráfico de influência.

Os interrogatórios de Lula em Brasília e o próximo em Curitiba ainda não foram agendados pelos juízes que conduzem os casos e não têm prazo para acontecer.

O número de “paradas” na “caravana penal” de Lula ainda pode crescer. Isso porque há duas denúncias contra o petista que podem ser aceitas pela Justiça a qualquer momento. Uma delas, no Supremo Tribunal Federal (STF), acusa o ex-presidente de ser o chefe do “quadrilhão do PT”. Outra, em primeira instância, acusa Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) de obstrução de Justiça no caso da tentativa de nomeá-lo ministro da Casa Civil.

Segunda instância

Lula já foi condenado por Moro em primeira instância no caso do tríplex no Guarujá. Cabe agora ao Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF4) analisar a sentença do juiz paranaense e selar o futuro político de Lula. Se for condenado em segunda instância, Lula cai na Lei Ficha Limpa e fica inelegível em 2018.

Para Zablonsky, a pressão dos movimentos sociais não vai mudar a decisão dos desembargadores, mas quanto mais perto das eleições a decisão do TRF4 sair, mais politizada vai ficar a questão. “Se deixar muito para perto da eleição, cria uma condição de ruptura de um candidato que não poderá se candidatar. Talvez a pressão política no mês de junho, julho do ano que vem seja mais complexa e mais difícil de ser resolvida pelo Judiciário”, diz.

Acompanhe os processos na Gazeta do Povo.

As mentiras do populismo lulopetista

Editorial do Estadão afirma que Lula e o PT mentem para tentar ludibriar a boa fé dos eleitores, tentando antecipar a campanha presidencial, com a omissão do TSE. "Lula talvez esteja começando a se convencer de que o melhor papel que poderá interpretar daqui para a frente será o de mártir. Poderá contar sempre, é claro, com a devoção daqueles em quem desperta a fé cega. Mas, se o caos político que ele legou ao País deixou muitos brasileiros perplexos quanto ao futuro, pelo menos ajudou-os a saber exatamente o que não querem mais":


Palanque é uma tribuna da qual o político fala diretamente ao povo em torno dele reunido. Nessas circunstâncias, é natural que seja usada uma linguagem coloquial, popular, acessível a todos. É uma questão de adaptar a mensagem, em sua forma, ao público-alvo. O conteúdo dessa mensagem, no entanto, independentemente da forma por meio da qual é transmitido, precisa ser verdadeiro. Mentir no palanque, na tentativa de conquistar apoio, é ludibriar a boa-fé do ouvinte. Pois é mentir para o povo o que Lula e o PT vêm fazendo desavergonhadamente na tentativa de antecipar a campanha presidencial.

“Desemprego bate recorde no Brasil. Falta de repasses fecha universidades. Temer corta milhares do Bolsa Família. Reformas dificultam aposentadorias e retiram direitos. Agora querem até retirar o seu direito de escolher um presidente.” Essas deslavadas mentiras, proclamadas em tom dramático por um locutor, estão no filmete de 30 segundos inserido pelo PT no horário político na TV. Ao final, surge a presidente nacional do partido nomeada por Lula, senadora Gleisi Hoffmann (PR): “O PT já demonstrou que é possível crescer com democracia, combatendo as desigualdades e gerando empregos. Vamos juntos defender o Brasil”.

O exemplo mais contundente da capacidade de proclamar mentiras, numa hábil e emotiva linguagem popular talhada para levar convertidos e desinformados ao delírio, foi dado no recente périplo eleitoral de Lula pelo Nordeste.

Lula no Recife, ao lado de Dilma Rousseff: “Eles querem acabar com o Bolsa Família. Querem acabar com o Minha Casa, Minha Vida. Querem vender a Petrobrás. Querem acabar com o BNDES. Querem vender o Banco do Brasil. Estão vendendo até a Casa da Moeda. (...) Se eles não sabem governar, por favor, deixem quem foi eleita pelo povo voltar e terminar o seu mandato”.

Lula em Altos, Piauí, contando que num comício seu havia um cidadão trabalhando com “uma maquininha de descascar laranja”: “Mandei comprar meia dúzia de laranjas e comecei a chupar laranja e jogava fora o bagaço. Foi quando vi que tinha umas crianças pegando os bagaços e comendo. Essa foi uma imagem que eu...”. Com a voz embargada, Lula começa a chorar e não termina a frase.

Lula recebendo o título de Doutor Honoris Causa na Universidade Federal do Piauí, em Teresina: “Tem uma coisa de que eu me orgulho, é o orgulho que o nordestino passou a ter de si mesmo depois que eu fui eleito presidente da República. (...) Nunca antes nesse país um presidente da República se reuniu com reitores. Eu, durante oito anos, todos os anos me reuni com todos os reitores das universidades juntos”.

No encerramento da excursão nordestina, na capital maranhense, São Luís, Lula já havia declarado, em evento anterior, que “um presidente precisa ter claro para quem governa”, surpreendendo quem imaginava que um presidente da República deve governar para todos. No comício final, caprichou na repetição de uma peça de retórica populista que invariavelmente deixa o público em êxtase. Após descrever detalhadamente a “apoteose” que viveu em cada uma das cidades visitadas, Lula fez uma pausa dramática e concluiu: “Estou cansado, mas estou feliz da vida. (...) Esse não é o cansaço da covardia. É o cansaço da batalha, da labuta. E estou aqui, cansado, para dizer para eles que se quiserem me derrotar que venham para a rua disputar voto”.

Fora do mundo da fantasia, tudo sugere que após a delação de Antonio Palocci e de seu próprio depoimento, pela segunda vez, perante o juiz Sergio Moro, quando se mostrou irritadiço e às vezes inseguro, num desempenho inconvincente, Lula talvez esteja começando a se convencer de que o melhor papel que poderá interpretar daqui para a frente será o de mártir. Poderá contar sempre, é claro, com a devoção daqueles em quem desperta a fé cega. Mas, se o caos político que ele legou ao País deixou muitos brasileiros perplexos quanto ao futuro, pelo menos ajudou-os a saber exatamente o que não querem mais.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Capitalismo e liberdade

"O capitalismo é uma exceção na história de dominação e exploração do homem pelo homem. A essência do capitalismo é a liberdade do indivíduo e a liberdade de cada pessoa para escolher o que quiser fazer com sua vida, a liberdade de associar-se para empreender um negócio, para empregar-se ou empregar outras pessoas etc. Artigo de Javier Paz García, publicado em Libertad.org: 



Si escucha a alguien hablar peyorativamente sobre el “capitalismo salvaje”, podrá inferir con un alto grado de certidumbre que el locutor entiende poco o nada de capitalismo. La historia de la humanidad se caracteriza por sistemas políticos de dominación de unos pocos favorecidos por la servidumbre de muchos. Desde las dinastías chinas, hasta las monarquías europeas decimonónicas, desde el imperio romano hasta el imperio incaico, desde la Esparta guerrera hasta los países comunistas, la persona común ha visto sus posibilidades de elegir reducidas o eliminadas. Elegir gobernantes, elegir su religión, elegir donde vivir, elegir migrar, elegir en qué y con quién trabajar, es decir, elegir en todas sus dimensiones.

El capitalismo es una excepción en la historia de dominación y explotación del hombre por el hombre. La esencia del capitalismo es la libertad del individuo y la libertad de cada persona para elegir qué quiere hacer con su vida, la libertad de asociarse para emprender un negocio, para emplearse o emplear a otras personas, etc. Y cuando los seres humanos ejercen su libertad, la única manera de lograr que la gente haga cosas juntas, es mediante la cooperación voluntaria. En un sistema capitalista no se puede obligar a las personas a trabajar para cierta empresa, sino que hay que ofrecerles salarios competitivos y condiciones adecuadas. En un sistema capitalista no se puede obligar a la gente a que escuche cierta radio, lea cierto periódico, consuma ciertos alimentos o vaya a tal o cual escuela, como sí ocurre en sistemas opresivos como el comunista.

Y por supuesto, en un sistema capitalista florece una forma altruista de cooperación: la beneficencia. Se multiplican las campañas para donar y ayudar a los necesitados, para operar de labio leporino a las personas de escasos recursos, se crean escuelas y universidades, algunas con fines de lucro y otras no, algunas más caras y otras más baratas, algunas muy buenas y otras mediocres, pero que al final sirven a la sociedad. En una sociedad libre se encuentran soluciones a los problemas colectivos y como en el caso de Santa Cruz de la Sierra, la sociedad puede organizarse para crear cooperativas de agua, electricidad y telefonía, sin que intervenga el Estado.

Como decía Milton Friedman, el capitalismo es la libertad de elegir. Amartya Sen acota que la libertad es el camino al desarrollo porque, como notaba Adam Smith, nadie puede velar por los asuntos de uno mejor que uno mismo.

A herança maldita da América Latina

O professor mexicano Macário Schettino elenca, em artigo publicado pelo Instituto Cato, as razões históricas que levaram a América Latina a ser uma das regiões mais desiguales e violentas do mundo:


En varias ocasiones le he comentado que América Latina es el continente más desigual y más violento del mundo. Algunos no lo creen, y encuentran algún país africano con más desigualdad(sí los hay) o algún otro que es más violento durante un tiempo. Pero se trata de casos aislados o de momentos específicos. De manera estable, nuestro continente es el más desigual y el más violento. 

¿Qué más tenemos en común los latinoamericanos? En materia económica, además de la desigualdad, somos países de ingreso medio, muy dependientes de las materias primas, y tradicionalmente reacios al libre comercio. Sin duda, hay variantes. México es ahora un país que no depende de materias primas y muy abierto al comercio, pero sólo lo ha sido por los últimos 25 años. Chile parece a punto de salir del ingreso medio. En lo general, sin embargo, ésas son características económicas de los países latinoamericanos. 

Históricamente, nuestros puntos en común son conocidos: culturas autóctonas que no desarrollaron metalurgia (salvo de oro y plata), y que nos heredaron una cantidad no menor de costumbres e ideas. Luego, la conquista y la colonia, que nos dejó idioma y religión, modificados por dichas culturas originales. 

Políticamente, (casi) todos nos independizamos en el primer cuarto del siglo XIX, y luego vivimos medio siglo de caudillos, 35 años como proveedores del capitalismo global, y después las guerras civiles y el clientelismo populista del siglo XX, que en América del Sur se reflejó en la disputa entre blancos y colorados, y en México estaba subsumido en un único partido. 

Es una visión esquemática (unos pocos renglones), pero me parece que ayuda a entender por qué nuestra gran desigualdad y desatada violencia. Las independencias fueron más maniobras de las élites locales que luchas liberales, y es la dinámica entre esas élites y los caudillos lo que explica mejor nuestra historia. En esencia, América Latina vive, en los últimos dos siglos, las relaciones de poder que Europa conoció entre los siglos XIV y XIX. Al compararnos con Europa (y sus brotes) de forma contemporánea, nos abruma una sensación de atraso que creo que explica un cierto complejo de inferioridad, pero también la desesperación frente a una aparente lentitud en nuestro avance: económico, político y social. 

Tanto nuestra desigualdad como nuestra violencia son más parecidas a las que Europa y sus brotes vivieron hace cuatro siglos, y también lo es nuestra religión y, con un poco de ajuste, la política y la economía. Cualquier país latinoamericano de hoy, en cuanto a sus características sociales, políticas y económicas, no desentonaría en el siglo XVII europeo. El secularismo, la innovación, la competencia, la globalización, no son lo nuestro. Queremos todo lo bueno de los países que hoy son desarrollados, sin pagar el costo que ellos cubrieron durante siglos. 

Reducir la violencia implica contar con un Estado fuerte como el que los europeos construyeron en ese tiempo, o el que tienen países asiáticos incluso desde antes (y que no perdieron con la invasión europea). Impedir que ese Estado abuse requiere limitarlo legalmente, pero nuestro Estado de derecho es muy débil, y lo hemos debilitado aún más con excesos 'garantistas' (imposibles de cumplir sin el Estado fuerte, por cierto). 

Reducir la desigualdad implica terminar con el capitalismo de cuates, propio de los estados de élites (como fueron creados los latinoamericanos). Ese proceso puede acelerarse a través de la innovación y la competencia, hoy bloqueados por leyes hechas para defender las clientelas, sostén de los caudillos. 

De cierta forma, terminar con la sociedad desigual y violenta, la economía primaria y cerrada, y la política de caudillos y clientelas implica dejar de ser latinoamericanos, en el sentido histórico. Creo que vale la pena hacerlo.

Este artículo fue publicado originalmente El Financiero (México) el 19 de septiembre de 2017.

Com poder de decidir o que é justo, 'noblesse de robe' se sente intocável.

"A nobreza togada é a alta burocracia do Estado e, principalmente, o Poder Judiciário - dentro deste, juízes e procuradores no topo da carreira. Na máquina cotidiana do poder, esses são os seres mais poderosos do país. Decidem seu futuro com um clique ou uma canetada". Coluna de Luiz Felipe Pondé na Folha de São Paulo:


Você não lembra o que é "noblesse de robe"? As aulas sobre o Antigo Regime, anterior à Revolução Francesa de 1789 estão distantes na memória? É importante lembrarmos dessa "classe social" pra entendermos parte do problema da máquina estatal brasileira e de suas estrelas de grande ou pequeno porte.

Vamos traduzir esta expressão: "noblesse de robe" é nobreza togada em português. A diferença, no Antigo Regime francês, é que a "noblesse de robe" se diferenciava da "noblesse d'épée" (nobreza da espada) por ser esta a nobreza de fato, associada à condição guerreira da nobreza histórica, de ascendência sanguínea.

A nobreza togada eram aquelas pessoas de alta função burocrática no sistema, como funcionários jurídicos, administrativos, fiscais, enfim, toda a gama de funções que fazia a máquina do Estado absolutista funcionar. Eram "feitos" nobres por aqueles que de fato eram nobres.

Nobreza togada era uma nobreza "fake", mas nem por isso menos poderosa, na medida em que detinha nas mãos todo o trânsito burocrático e efetivo do poder do Estado francês de então.

Sabemos o fim da nobreza "da espada" na Revolução Francesa, no primeiro momento. Mas a nobreza sobreviveu, principalmente, a togada -ainda que sem o caráter "nobre". A máquina burocrática do poder permaneceu, em grande parte, na mão de uma classe togada. Em alguns casos, manteve-se o caráter vitalício do poder -ainda que não hereditário.

A nobreza togada é a alta burocracia do Estado e, principalmente, o Poder Judiciário - dentro deste, juízes e procuradores no topo da carreira. Na máquina cotidiana do poder, esses são os seres mais poderosos do país. Decidem seu futuro com um clique ou uma canetada.

Poder é uma coisa sedutora e, às vezes, invisível. O caráter vitalício de um cargo tende a dar bastante poder a quem o detém, porque essa pessoa fica protegida dos males da contingência da vida dos mortais comuns -conhecida como "mercado".

A nobreza togada é muito poderosa no mundo contemporâneo. Ela é mais bem representada por grande parte do corpo do Poder Judiciário. O Poder Judiciário é o poder "mais poderoso" do país. E nem precisam ser reeleitos. Não me refiro aos advogados enquanto tal, mas aos cargos judiciários públicos. Advogados estão submetidos à "violência" do mercado. Os cargos judiciários públicos, na maioria da vezes, detêm a única forma legítima de violência no Estado moderno. Logo, seu poder é legítimo e quase inquestionável. O poder de processar alguém ou algo é, no limite do humano, no mundo contemporâneo, como assemelhar-se a Zeus.

Um poder vitalício facilmente produz certos desdobramentos cognitivos (podemos discutir os morais, mas não é o caso aqui).

Quando sua condição no mundo é protegida das vicissitudes e instabilidades do mercado, a tendência é que você acabe por se sentir, de fato, na condição de quem tem o poder absoluto, uma vez que representa a lei na sua força coercitiva, e o que você "pensar sobre aquilo" é lei.

Depois do café da manhã, você decide o destino de pessoas, empresas, famílias, futuros, passados, enfim. Após o almoço, você cria mundos ordenados ou desordenados, "simplesmente" a partir do modo como você lê e aplica a lei. Cria vidas ou as destrói. Faz as pessoas sentirem que a vida delas está, literalmente, nas mãos de alguém.

Diferentemente do policial, a nobreza togada é protegida da gritaria do mundo. Ela decide o que é "justo" e o que é "injusto" e, com isso, num mundo que tende à judicialização de tudo como o nosso, ela faz "o destino do seres", como as Moiras na tragédia grega.

O poder de decidir vidas entre as refeições dá a você a sensação de ser quase intocável.

Uma certa tranquilidade que quase o eleva acima dos mortais comuns. Quem pode dizer para onde o dinheiro de X deve ir? Quem pode decidir que sua casa não é mais sua? Ou que não verá seu filho? Ou que o que você disse é passível de punição e, quem sabe, criar uma dívida enorme como fruto de uma frase que você colocou numa música ou num livro? Ou arruinar sua reputação num clique?

Insultar Trump é uma forma de onanismo: satisfaz, mas não convence.

Em texto publicado na Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho fala do último livro de Hillary Clinton: "honestidade é palavra que não combina com a senhora; o livro só pode ser produto de uma mente enlouquecida":


Comecei e não acabei o último livro de Hillary Clinton. Razões de saúde. Como aguentar as explicações de Hillary para a sua derrota contidas em "What Happened"?

Verdade que não tinha esperanças: honestidade é palavra que não combina com a senhora. Mas o livro só pode ser produto de uma mente enlouquecida.

Segundo Hillary, a derrota não é culpa sua. É culpa de Barack Obama, James Comey, Bernie Sanders, Vladimir Putin. E ainda dos "deploráveis" de Donald Trump, do machismo reinante, da mídia (palavra de honra: da mídia!). Será que a esquerda americana acredita nessa farsa?

Não acredita e Mark Lilla é a prova viva. Sei que tenho falado muito de Lilla. Inevitável. A grande distinção que existe não é entre esquerda ou direita, ao contrário do que pensam os débeis. É entre inteligência ou falta dela. Lilla é um dos mais brilhantes ensaístas da sua geração. Ser liberal de esquerda é um pormenor.

Mas não em "The Once and Future Liberal: After Identity Politics". O ano ainda não acabou. Mas arrisco dizer que é o melhor texto político que li em 2017.

Lilla não tem a covardia e a mendacidade de Hillary. Sim, a "nova esquerda" está em crise e insultar Trump (e os "deploráveis") é uma forma de onanismo: satisfaz, mas não convence. Os problemas da esquerda estão na própria esquerda.

Tese do autor: quando olhamos para o século 20, encontramos dois grandes momentos. O primeiro pertence a Franklin Roosevelt. O segundo a Ronald Reagan.

Roosevelt surgiu no meio do colapso econômico e da ascensão dos fascismos. Que fez ele? Deu um propósito comum aos americanos na luta por igualdade econômica, emancipação civil –e na derrota do totalitarismo.

O "New Deal", sob diferentes máscaras, prolongou-se até a década de 1970. Quando mostrou os seus limites: despesa incontrolável, carga fiscal idem, burocracia e regulação sufocantes.

Reagan ofereceu a segunda grande narrativa: o governo não era a solução para os problemas do país; o governo era parte do problema. Solução? Libertar a economia americana e a iniciativa individual rumo a uma América rica e confiante.

Perante esse segundo momento, que fizeram os "liberais" de esquerda? Um pouco de história: até a década de 1960, a base do Partido Democrata estava no "proletariado" (para usar a expressão do tio Karl) e nos trabalhadores rurais. Mas a contracultura submergiu essa tradição com seu romantismo libertário.

A principal consequência desse movimento foi a emergência de uma "política de identidade" que derrotou, digamos, a "identidade dual" que sempre definiu os nativos. Por um lado, eles eram americanos; por outro, e em decorrência do primeiro axioma, eles podiam ser o que quisessem (a situação dos negros é um caso à parte, claro).

A "política de identidade" apagou essa dupla dimensão: o indivíduo não é parte do todo. Ele passou a ser separado do todo pelo "narcisismo das pequenas diferenças". Ele é negro, gay, mulher, índio, anão – e não vai além do seu estreito horizonte. Isso significa que a política, para ele, é um assunto estritamente pessoal (e não republicano, no sentido cívico da palavra).

Essa cartilha foi promovida pelas universidades –e, em especial, pelos antigos alunos românticos da década de 1960, que, frustrados com a "realidade" da década de 1980, regressaram à base na qualidade de professores. E com duas mensagens letais: os partidos não são de confiança (melhor criar "movimentos") e as únicas causas políticas que valem a pena são aquelas que realizam nossas aspirações identitárias.

Por outras palavras: os liberais "balcanizaram-se" em tribos que não contam para nada. E o Partido Democrata foi arrastado para essa armadilha. Azar. A política, lembra Lilla, não é uma sessão contínua de terapia; é uma luta para conquistar e exercer o poder. Aliás, sem poder, os "direitos das minorias" são conversa de Facebook.

Só que a conquista e o exercício do poder implicam olhar para o mundo que existe "lá fora": para o "proletariado" e os trabalhadores rurais que não desapareceram com o arco-íris. Como o autor afirma, em imagem brilhante, é um mundo onde o wi-fi não existe, o café é fraco e os jantares não rendem boas fotos no Instagram.

Hillary Clinton perdeu porque ignorou e insultou os problemas e as aspirações desse mundo. Trump venceu pela razão oposta.

Se a "nova esquerda" não aprende a lição com a "velha esquerda", paz à sua alma.

100 anos de comunismo, 100 milhões de mortos.

Do blog O Insurgente:


A propósito do centenário da revolução socialista russa de Outubro de 1917 que se assinala brevemente, um título muito apropriado para a ocasião será: 100 Anos, 100 Milhões de Mortos, como no cartaz abaixo exposto na Times Square em Nova Iorque.

STF bate o martelo: segunda denúncia de Janot vai mesmo para a Câmara.

A decisão não deve ter agradado o ex-flechador da República, Rodrigo Janot, que ao sair jogou mais essa batata quente no STF:


Com seis votos a favor, o Supremo Tribunal Federal (STF) já formou maioria para aprovar o envio à Câmara da denúncia do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer (PMDB) por obstrução de justiça e organização criminosa.

Além do relator da Operação Lava Jato na Corte, Edson Fachin, negaram o pedido de Temer para suspender a tramitação da denúncia os ministros Alexandre de Moraes, Luis Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux e Ricardo Lewandowski votaram nesta quarta-feira a favor de que a denúncia apresentada pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer (PMDB) por obstrução de Justiça e organização criminosa siga diretamente para a Câmara dos Deputados.

O plenário do Supremo avalia pedido da defesa do presidente para que seja suspensa a tramitação da denúncia até que chegue ao final uma revisão sobre a delação dos executivos do grupo JBS. O acordo de colaboração premiada firmado com o Ministério Público Federal pode ser anulado em razão da omissão de fatos pelos delatores Joesley Batista, dono da companhia, e Ricardo Saud, diretor de relações institucionais da empresa.

O ministro Dias Toffoli foi o único a divergir até agora e concordar em parte com o pedido de Temer. Para ele, o relator Fachin tem a prerrogativa de analisar liminarmente a denúncia – e, portanto, a validade ou não das delações da JBS – antes de enviar a denúncia à Câmara.

Fachin foi o primeiro ministro a declarar seu voto logo após o reinício do julgamento, que começou na semana passada. O ministro disse que compete à Câmara deliberar primeiro sobre a autorização da denúncia, conforme previsto na Constituição. “A Câmara dos Deputados realiza um juízo predominantemente político”, disse. “O juízo político deve preceder à análise do Supremo Tribunal Federal”, completou.

Moraes, Barroso, Weber e Fux acompanharam o voto de Fachin. Ainda faltam sete ministros para votar. (Veja.com).

O "cavaleiro da esperança" e o memorial do mau agouro

Luiz Carlos Prestes, chefete stalinista da ridícula Coluna que leva seu nome e que andou sem rumo Brasil adentro, é brindado em Porto Alegre (cidade destruída pelo lulopetismo) com um memorial. Escreve Percival Puggina: "o Memorial Prestes está para ser inaugurado. Era tão extenso e valioso o quarteirão que lhe foi designado que, tendo cedido metade para a Federação Gaúcha de Futebol ali edificar sua sede, recebeu em troca a obra pronta, segundo projeto do camarada Oscar Niemayer. É uma pena que a cidade abrigue tão vistosa homenagem a essa figura menor da cena política brasileira, fiel a Moscou e infiel à sua pátria":


Provavelmente você já ouviu Luís Carlos Prestes ser mencionado como "o Cavaleiro da Esperança", distinção que lhe foi outorgada por Jorge Amado no início dos anos 40, em seus tempos de militante comunista. Ele recebera ordem do PCB para se exilar em Buenos Aires e escrever um livro propagandístico sobre seu personagem, preso pela ditadura Vargas. Esperavam os comunistas brasileiros que a repercussão da obra gerasse pressão internacional para a libertação de Prestes. Não gerou, mas o título do livro, publicado originalmente em espanhol, acabou virando cognome do biografado.

Tudo seguiu a mais estrita orientação do centralismo, mitificação e propaganda característica das organizações comunistas. Morte aos fatos e aos acontecimentos! Longa vida às versões que sirvam à causa! Anos mais tarde, Jorge Amado repudiou essa e outras obras, como se verá a seguir, mas a construção do mito persistiu em posteriores biografias, como a escrita por Anita Leocádia - "Luiz Carlos Prestes, um comunista brasileiro" - que cumpriu muito zelosamente seu papel de filha do biografado.

Atente para estas palavras de Jorge Amado, num pequeno vídeo que pode ser assistido aqui:
"Nenhum escritor, naquele momento, naquela ocasião, era um escritor que não tivesse um engajamento. E toda primeira parte da minha obra traz um engajamento que é uma excrescência. Nós éramos stalinistas, mas terrivelmente stalinistas. Para mim Stalin era meu pai. Era meu pai e minha mãe. Para a Zélia [Gatai]também. Nós levamos uma trajetória de anos cruéis para compreender que o pai dela era o mecânico Ernesto Gattai e que meu pai era o coronel do cacau João Amado. Quer dizer, o partido me utilizou. E a partir desse momento, em realidade, o que o partido fez foi, sem querer, provavelmente, a tentativa de acabar com o escritor Jorge Amado, para ter o militante Jorge Amado. No fim do ano de 1955 eu soube que a polícia socialista torturava os presos políticos tão miseravelmente quanto a polícia de Hitler. O mundo caiu sobre a minha cabeça. Já sem escrever a longo tempo, já descrente por inteiro das ideologias, do fundamental das ideologias - Stalin era vivo ainda - eu deixei o partido comunista. Fui atacado por muitos dos comunistas de uma forma muito violenta. O principal dirigente comunista da época, depois de Prestes, que era Arruda Câmara, disse que dali a seis meses eu não existiria como escritor e como intelectual. Felizmente ele se enganou. Ideologia, quer saber o que é, Henry? É uma merda!".
Pois coube a Luís Carlos Prestes, cavaleiro de sua coluna inútil pelo interior do Brasil, receber da Prefeitura de Porto Alegre um latifúndio urbano em área nobilíssima da cidade, para ali ser erguido memorial em sua homenagem. A coluna Prestes, é bom registrar, em virtude das "expropriações revolucionárias" que fazia, deixou um rastro de miséria por onde passou. Como garantia do butim, entregava bônus que a revolução, quando vitoriosa, haveria de saldar... E como tampouco havia apelo na causa defendida junto a uma população interiorana que sequer sabia quem governava o país, a coluna viajou 25 mil quilômetros afugentando aqueles que pretendia atrair. Se você perguntar o que Prestes fez pelo Brasil (ou pela cidade) só descobrirá que se empenhou sempre, e sem escrúpulo, por alguma ideia revolucionária desastrada, desastrosa ou totalitária.

O Memorial Prestes está para ser inaugurado. Era tão extenso e valioso o quarteirão que lhe foi designado que, tendo cedido metade para a Federação Gaúcha de Futebol ali edificar sua sede, recebeu em troca a obra pronta, segundo projeto do camarada Oscar Niemayer. É uma pena que a cidade abrigue tão vistosa homenagem a essa figura menor da cena política brasileira, fiel a Moscou e infiel à sua pátria.

Espero que a posteridade não veja o prédio como uma reverência desta geração de sul-rio-grandenses, mas como produto fortuito e circunstancial do trabalho de um grupo político com escassa representatividade, que ainda hoje se abraça a essa ideologia de péssimo passado e nenhum futuro. Por isso, e só por isso, cai-lhe bem o nome "Memorial".