domingo, 8 de janeiro de 2017

Hora de refundar a República

O economista Sergio Besserman Vianna diz que o Brasil está diante de dois nós
górdios: 1) a morte da Nova República; e 2) a economia, que parece tomar o rumo certo:


Frente ao nó górdio — há 500 anos impassível esperando quem o desatasse e, segundo a lenda, ao fazê-lo, cumprisse o destino de conquistar a Ásia Menor — Alexandre, o Grande, puxou da espada e o cortou. Uma metáfora sobre como resolver um problema complexo de maneira simples e eficaz.

Meu professor e ex-ministro Pedro Malan observou que, no Brasil, para cada problema complicado, há sempre alguém com uma solução simples, e errada. De fato, a metáfora do nó górdio só funciona baseada em lendas. Afinal, pela espada, a corda não permanece íntegra, mas cortada para sempre.

O Brasil está frente a dois nós górdios, e a visibilidade sobre como serão desatados é nula. Densa neblina favorece os iludidos sobre o poder da espada, seja ela para acabar com a “classe política”, com a corrupção, com as corporações, com o “gastar mais do que se arrecada”, com o rentismo, com as elites ou com o populismo, e assim por diante, cada um puxando seu fio.

Todos esses dibuks estão presentes e devem mesmo ser exorcizados, mas os dois nós górdios amarram de forma inseparável o rabo dos demônios que nos assombram. Afinal, “só existe uma ciência, a ciência da história”, como o velho Karl e seu amigo Engels escreveram, em frase genial da qual não gostaram tanto, pois a riscaram a lápis nos manuscritos da “Ideologia alemã”.

O primeiro nó é a morte da Nova República. Após tudo que veio à tona, só extrema hipocrisia pode admitir a possibilidade de que o atual sistema político-eleitoral recupere a legitimidade com remendos. Se o caminho for esse, a Ásia Menor jamais será conquistada, e o Brasil acabará consagrando a expressão “república gigante das bananas”. Por muitas décadas. Precisamos concreta, e não retoricamente, refundar a República.

O segundo nó górdio é a economia. Estamos no caminho certo para não morrermos (longe da praia). Afinal, em um país com a dívida pública em trajetória insolvente, como a nossa, o poder deve reconhecer o fato, dizer como vai fazer para mudar o rumo e começar a executar. Se não o fizer, cai. Da forma que for, variando com o estilo ou possibilidades de cada sociedade.

Mas, não morrer não é viver bem. Como escapar da armadilha dos países de renda média? Um nó górdio para uma sociedade tão profundamente desigual como a nossa.

O caminho principal é a educação e a valorização do conhecimento, claro. Para a população em geral e para nossas elites. Mas, convenhamos, a defasagem e o estoque de problemas são tão grandes que esse, o maior dos desafios, é estrada para muito tempo.

Precisamos encontrar uma inserção competitiva na economia global. E terá de derivar de visão estratégica, pois hoje a conjuntura da economia mundial está conturbada e imprevisível, ainda nos mares tempestuosos da grande recessão de 2008.

Como desatar dois nós górdios sem cortar a corda com a espada? Feliz 2017. Assuntos não faltarão. (O Globo).

4 comentários:

Joe Cool disse...

O texto foi bem até o autor soltar o chavão máximo no Brasil: "O caminho principal é a educação e a valorização do conhecimento." A educação que ele evoca no texto não é um conjunto de conduta moral e regras sociais, mas apenas instrução formal. Isto não quer dizer nada, independente da qualidade e de como ela é oferecida. Se não houver um forte senso de conduta moral e regras sociais ordenadas o problema nunca será resolvido.

Anônimo disse...

Artur Nogueira diz:
Boa, Sr. Joe Cool (acima).
Penso que o caminho é o respeito à Ordem e leis e dever cívico dos cidadãos.
Agora, para começo de conversa, com essa bizarrice intitulada CF 88-a" constituinte cidadã", estaremos sempre cavando mais fundo o interminável poço sem fundo. E utilizando todas falácias possíveis com seus intermináveis discursos populistas/manipuladores, nossos probos governantes vão seduzindo uma grande parcela da população, que diga-se de passagem, contribui e muito para a permanência desse status quo. 60(sessenta) anos de doutrinação esquerdista resultou nisso que estamos vendo já há algum tempo.

intervenção civil e militar disse...

Boa concordo,limpeza geral.

intervenção civil e militar disse...

Boa concordo,limpeza geral.